Tempo de vida perdido: o impacto da SRAG na expectativa de vida no Nordeste e suas UFs

A expectativa de vida de uma população é um indicador demográfico que avalia a incidência da mortalidade de uma determinada região sobre o ciclo de vida da população. A sua expressão mais conhecida é a expectativa de vida ao nascer. Trata-se, grosso modo, da média de anos esperados de vida que uma criança nascida em determinada localidade terá caso as taxas de mortalidade presentes se mantenham as mesmas no futuro. Mas essa medida também é calculada para toda as idades da mesma população e temos, assim, que a expectativa de vida pode ser obtida para cada idade exata. Ou seja, obtemos a expectativa de vida ao nascer, mas também aos 10 anos, 20 anos, 30 anos e assim por diante até o grupo de idade final aberto, nesse caso, 90 anos e mais. Esta análise realiza uma metodologia em que se estima as diferenças na expectativa de vida da população considerando duas situações: total de mortes e a eliminação das mortes decorrentes de uma causa básica de morte específica. Assim, usamos a Teoria de Múltiplos Decrementos, como é chamada essa abordagem, para saber as diferenças da expectativa de vida da população considerando todas as mortes e a expectativa de vida excluindo as mortes decorrentes de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG).

Com base nos dados preliminares de mortes obtidas pela Central de Informações do Registro Civil (CRC) que são atualizados diariamente no Portal da Transparência (Painel Covid Registral) e mantido pela Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen), analisamos as mortes ocorridas desde o início de 2020 até o dia 10.05.2020 (data da última atualização disponível até o momento dessa análise). E por que usamos as mortes decorrentes de SRAG? Como já apresentamos em análises anteriores, existe um elevado grau de subnotificação nos casos e mortes por Covid-19 no Brasil (e também no mundo) decorrente da ausência de testes e da pressão sobre o sistema de saúde. A SRAG é a doença respiratória causada por vírus gripais, entre eles o novo coronavírus (Sars-CoV-2) que é a principal virose registrada entre as internações e os óbitos no ano de 2020. A SRAG segue uma definição padronizada, inclusive em registros internacionais, estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e considera os casos de mortes onde são identificados os sintomas: Febre, Tosse e Dificuldade Respiratória. Por isso, analisar os casos de SRAG nos permite ter uma clareza maior dos casos de Covid-19 não registrados.

A análise privilegiou, nesse momento, o Brasil, a região Nordeste e as Unidades da Federação nordestinas. De acordo com o Gráfico 1, as Unidades da Federação que apresentaram os maiores ganhos na expectativa de vida ao nascer foram Maranhão, Ceará e Pernambuco, com ganhos de 534, 485 e 408 dias de vida (1,46, 1,33 e 1,12 anos), respectivamente. Isso quer dizer que se fossem excluídos os óbitos por SRAG em 2020 no Pernambuco, por exemplo, uma criança nascida nesses primeiros meses do ano nesse estado, poderia viver 485 dias a mais se excluíssemos as mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Para o Nordeste, esse ganho corresponde a 0,7 anos (255 dias); e para o Brasil, 217 dias.

Figura 1 – Ganhos na expectativa de vida ao nascer (em dias) excluídos os óbitos por Síndrome Respiratória Aguda Grade (SRAG), Brasil, Nordeste e Unidades da Federação do Nordeste, 2020. Fonte: Painel Covid Registral, atualização até 10.05.2020.

Se verificarmos esse ganho na expectativa de vida em cada idade (Gráfico 2), nota-se que ele é decrescente. O que é esperado, pois conforme sobrevivemos a cada ano de vida, reduz-se o tempo médio esperado de vida que temos pela frente. No entanto, se consideramos o ganho relativo na expectativa de vida em cada idade, verifica-se que os maiores ganhos percentuais ocorrem nas idades mais avançadas, conforme Gráfico 3. Percebe-se, por exemplo, que seria de quase 7% o ganho na expectativa de sobrevida de um idoso de 90 anos ou mais no Ceará ou Pernambuco se excluídos os óbitos por SRAG. Ou seja, embora o ganho de tempo médio de vida seja menor conforme avançam as idades, esse ganho representa uma maior proporção na comparação entre a mortalidade total e a mortalidade excluindo-se as mortes por SRAG.

Figura 2 – Ganhos na expectativa de vida em todas as idades (em dias) excluindo os óbitos por Síndrome Respiratória Aguda Grade (SRAG), Brasil, Nordeste e Unidades da Federação do Nordeste, 2020. Fonte: Painel Covid Registral, atualização até 10.05.2020.
Figura 3 – Ganhos na expectativa de vida em todas as idades (em %) excluindo os óbitos por Síndrome Respiratória Aguda Grade (SRAG), Brasil, Nordeste e Unidades da Federação do Nordeste, 2020. Fonte: Painel Covid Registral, atualização até 10.05.2020.

Trata-se de um exercício teórico que permite refletir sobre o impacto de uma causa de mortalidade sobre uma determinada população. Portanto, permite avaliar o peso que tem as mortes por SRAG no conjunto da mortalidade total dessas regiões e UFs. Considerando que as hospitalizações e mortes por SRAG entre os primeiros meses de 2019 e 2020 apresentaram uma diferença expressiva, pode-se supor que a Covid-19 seja um fenômeno que alterou significativamente as condições de saúde da população no país, no Nordeste e suas UFs. De certa maneira, se não ocorressem mudanças no perfil da mortalidade geral entre 2019 e 2020, a aplicação desse exercício teórico nos permitiria supor, também, as mudanças potenciais na expectativa de vida do ano passado para esse ano, com a incorporação da Covid-19 como nova causa de mortalidade.

Figura 4 – Número de óbitos diários registrados por Covid-19 na Itália. Fonte: Worldometers (https://www.worldometers.info/coronavirus/country/italy)

Por fim, vale ressaltar que esses dados são ainda parciais de todo o impacto que a Covid-19 poderá causar na mortalidade geral da população brasileira ao longo do ano de 2020. Há uma subnotificação, inclusive nos casos de SRAG (e de certo, nas demais causas também que precisariam ser corrigidas), e ainda temos mais de metade do ano pela frente e a tendência do aumento do número de óbitos por SRAG e por Covid-19 é crescente no Brasil. Mesmo que o número de mortes diárias pare de crescer, ao longo dos próximos meses a tendência de queda tende a ser mais lenta do que foi (ou está sendo) a curva de subida. Como podemos ver pela experiência do caso Italiano (Figura 4, acima), que já passou pelo pico da pandemia próximo ao final de março, e quase um mês e meio depois ainda se mantém estável um número de mortes por Covid-19 da ordem de 100 por dia. Ou seja, a pandemia da Covid-19 deverá causar uma perda significativa na expectativa de vida ao nascer e o ano de 2020 apresentará uma ruptura nas tendências crescentes que vimos experimentando ao longo dos últimos anos, principalmente em termos proporcionais entre os idosos.

Victor Hugo Dias Diógenes – Demógrafo, professor do Departamento de Finanças e Contabilidade (DFC) da Universidade Federal da Paraiba (UFPB) e doutorando do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Ricardo Ojima – Demógrafo, professor do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais (DDCA) e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

José Vilton Costa – Demógrafo, professor do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais (DDCA) e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Confira essa e outras análises demográficas também no ONAS-Covid19 [Observatório do Nordeste para Análise Sociodemográfica da Covid-19] https://demografiaufrn.net/onas-covid19

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