Editorial | ONAS-Covid19 | 24.05.2020 | Não dá mais pra dizer que é uma “gripezinha”

Desde o dia 30 de março, o Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) deu início ao Observatório do Nordeste para Análise Sociodemográfica da Covid-19 (ONAS-Covid19) com o objetivo de elaborar análises baseadas em evidências empíricas prioritariamente para a região Nordeste e suas Unidades da Federação. Naquele momento, a situação da pandemia da Covid-19 já era preocupante para aqueles que seguiam os dados e as perspectivas científicas discutidas internacionalmente. No nosso primeiro editorial registrávamos cerca de 10 mil casos e 432 óbitos pela Covid-19 no Brasil e, conforme a situação evoluiu, mais seguros ficamos da necessidade de continuar as nossas análises.

Hoje, já temos no país quase 350 mil casos confirmados da Covid-19 e mais de 22 mil vidas foram perdidas. O Brasil já é segundo país do mundo em número de casos e o sexto em número de óbitos. Há oito semanas atrás, quando começamos as análises do ONAS-Covid19, o negacionismo à pandemia girava em torno do fato de que o Brasil não teria como ser comparado à Itália (epicentro dos casos e óbitos naquele momento), pois a nossa densidade populacional era baixa, o nosso clima era tropical e a população era mais jovem. O senso comum se guiou por esses argumentos, mesmo que os argumentos científicos já dissessem que: as densidades precisam ser analisadas a partir do recorte espacial devido e não do país como um todo; que o clima tinha pouco (ou nenhum) efeito sobre a propagação dessa doença; e que nossa população não era tão jovem assim, sobretudo, nas capitais e regiões metropolitanas (onde primeiro ocorreram os casos).

A despeito do que você queira acreditar, as evidências empíricas de outros países já sinalizavam desde o final de Março que a evolução da Covid-19 no Brasil poderia caminhar para uma situação grave. E chegamos ao final de Maio com uma média (dados de 1 a 23 de maio) de 699 óbitos por dia, sendo que essa tendência é crescente e, nos últimos 5 dias (19 a 23 de maio), essa média diária é de 1.044 óbitos por dia. Para termos uma base de comparação, os dados do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM/DataSUS) de 2018 (dados mais recentes disponibilizados no sistema) registram uma média de cerca de 1.045 óbitos diários para as doenças do aparelho circulatório (principal causa de óbito no país) no mês de maio de 2018. As causas externas de mortalidade que incluem as mortes por acidentes de transito e mortes violentas (quarta causa de óbitos mais comuns em 2018) tinha uma média de cerca de 409 por dia. Por fim, as mortes diárias por Covid-19 até o dia 23 de maio correspondem a quase 20% da média diária de mortes totais de maio de 2018.

Figura 1 – Média de óbitos diários das principais causas (em maio de 2018) e média de óbitos por Covid-19 (entre 1 e 23 de maio de 2020). Fonte: SIM/DataSUS e Painel Coronavirus/MS.

Assim, mesmo que em meados de março os negacionistas pudessem ter uma percepção de que não se tratava de mais do que uma “gripezinha”, diante das evidências dos dados de hoje, permanecer com essa visão é muito difícil. Ainda que estivéssemos em tendência de estabilização ou decrescentes, os dados de mortes diárias são evidencias fortes da gravidade da situação. Mas, pelo contrário, a tendência da evolução da doença no Brasil ainda é crescente. Passamos para o estágio sustentado de avanço da doença nos municípios do interior e, com isso, a gravidade tende a aumentar. Pois com os sistemas de saúde já estão operando no limite da sua capacidade nas capitais, a menor capacidade instalada de equipamentos e UTIs no interior tende a levar a taxas de mortalidade por número de habitantes maiores do que as capitais.


Ao longo dessas últimas 8 semanas, publicamos 65 vezes desde que iniciamos o ONAS-Covid19; uma média de um artigo por dia. Abordamos diversos aspectos da dinâmica demográfica relacionados aos efeitos diretos e indiretos da evolução da pandemia da Covid-19 no Brasil, com especial destaque ao Nordeste e, sempre que possível, o Rio Grande do Norte. As análises puderam ser potencializadas por 61 vezes que algum texto nosso foi destacado por meios de comunicação e imprensa. Foram diversas reportagens para o Portal de Notícias da UFRN, para a Tribuna do Norte e os telejornais das afiliadas às redes Globo, Record e SBT aqui na região. A pandemia não é só sobre saúde, é sobre a vida das pessoas e sobre as relações sociais. O que achamos que estamos conseguindo mostrar também é que ciências humanas, sociais e sociais aplicadas são áreas do conhecimento fundamentais para entender o que estamos passando.

Editorial | 24.05.2020 | Ricardo Ojima | Coordenador do ONAS-Covid19 | Programa de Pós-Graduação em Demografia | Universidade Federal do Rio Grande do Norte | Não dá mais pra dizer que é uma “gripezinha”

Confira essa e outras análises demográficas também no ONAS-Covid19 [Observatório do Nordeste para Análise Sociodemográfica da Covid-19] https://demografiaufrn.net/onas-covid19

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