Suicídio: uma questão de gênero

Os suicídios em mulheres apresentam valores inferiores aos suicídios em homens, no entanto, as mulheres apresentam mais tentativas de suicídio do que estes, sendo denominado como o paradoxo do suicídio. Segundo, Stela Nazareth Meneghel e colaboradores, se considerarmos apenas o suicídio consumado teremos um problema masculino, no entanto, se avaliarmos a ideação e tentativa de suicídio teremos um alta carga de doenças para as mulheres. Evento que merece ser estudado para entender os determinantes sociais envolvidos em sua ocorrência.

No Brasil, 67,55% das 338.569 notificações de tentativas suicídio no período de 2010 a 2018 ocorreram em mulheres (Gráfico 1), situação que se manteve em todos os anos desse período. Isto pode estar relacionado ao fato de que as mortes violentas estão mais atreladas ao mundo masculino, incluindo o acesso facilitado a meios mais letais e as mulheres, de maneira geral, permanecem mais tempo com ideias suicidas e tentativas de menor letalidade. 

Estudos têm relacionado os suicídios como uma questão de gênero, assim homens e mulheres se suicidariam quando não conseguem cumprir o seu papel tradicional de gênero. Ao estudar os suicídios em idosos Stela Nazareth Meneghel e colaboradores afirmam que os homens idosos se suicidariam quando deixam de cumprir o seu papel de provedor ao se aposentar, e as mulheres idosas se suicidariam quando não conseguem mais cumprir o seu papel de cuidadora.

As mulheres jovens que sofrem violência doméstica têm maior risco de cometer suicídio. Pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde no período de 2011 a 2015 mostrou que mulheres que tinha notificação prévia de violência doméstica apresentavam 30 vezes maior risco de morrerem por suicídio quando comparadas com as mulheres sem notificação prévia de violência.

Gráfico 1 – Percentual de notificações de tentativas de suicídio no Brasil por sexo (%), no período de 2010 a 2018.
Fonte: Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação – Sinan Net

Os suicídios em mulheres estão relacionados a violência de gênero, à depressão, privação social, perdas afetivas de cônjuges e filhos, abortamento, além das singularidades que permeiam as histórias de vidas, pois o suicídio é um fenômeno multideterminado e multicausal que varia de acordo com questões psicológicas, sociais, biológicas e culturais.

No período de 2010 a 2019, ocorreram 23.929 suicídios femininos no Brasil, representando 6,56 suicídios por dia e uma taxa de mortalidade de 2,72 óbitos a cada 100 mil mulheres.  

As maiores taxas de mortalidade foram observadas em mulheres nas faixas etárias de 40 a 69 anos (Gráfico 1), e nas regiões Sul e Centro- Oeste em todos os anos estudados, sugerindo aumento das taxas de mortalidade ao longo dos anos (Gráfico 2). Esses dados corroboram o aumento nas taxas de suicídio na população geral nessas duas regiões, que demonstram ascendência ao longo das últimas décadas de estudos.

Em relação à raça/cor verifica-se maior frequência de suicídios em mulheres negras nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, e nas demais regiões há maior proporção de óbitos em mulheres brancas. Esse fenômeno pode estar relacionado, de um lado, as desigualdades sociais que se exacerbam em mulheres negras nas regiões mais pobres do país, de outro, na inconsistência dos dados do Sistema de Informação, tendo em vista que a raça/cor na Declaração de óbito é preenchida pelo médico que faz a Declaração de Óbito (DO).

O local de ocorrência do suicídio de maior frequência em todas as regiões e no estado do RN foi o domicílio, e tiveram como principal meio de perpetração o estrangulamento e o uso de substâncias químicas (medicamentos e pesticidas) (Gráficos 3, 4 e 5).

Gráfico 2 – Taxa de mortalidade por suicídio em mulheres no Brasil segundo faixa etária, no período de 2010 a 2019.
Fonte: Ministério da Saúde/SVS -SIM/DATASUS
Gráfico 3 – Taxas padronizadas de mortalidade por suicídio em mulheres, segundo região brasileira em mulheres na faixa etária de 10 e mais anos.
Fonte: Ministério da Saúde/SVS -SIM/DATASUS
Gráfico 4 – Percentual de suicídio em mulheres segundo local de ocorrência e regiões do Brasil, no período de 2010 a 2019
Fonte: Ministério da Saúde/SVS- SIM/DATASUS
Gráfico 5 – Percentual de suicídio em mulheres segundo raça/cor e região geográfica brasileira, no período de 2010 a 2019.
Fonte: Ministério da Saúde/SVS- SIM/DATASUS
Gráfico 6 – Percentual de suicídio em mulheres segundo meio de perpetração e região geográfica brasileira, no período de 2010 a 2019.
Fonte: Ministério da Saúde/SVS -SIM/DATASUS
Gráfico 7 – Percentual de suicídio de mulheres segundo meio de perpetração no estado do Rio Grande do Norte, no período de 2010 a 2019
Fonte: Ministério da Saúde/SVS -SIM/DATASUS

Chama-nos a atenção a baixa proporção de lesão autoprovocada sendo perpetrada por arma de fogo. Discute-se que o controle da circulação de armas de fogo é uma medida de prevenção contra o suicídio, países em que o acesso à arma de fogo é facilitado têm maior frequência de suicídio provocado por arma de fogo. E segundo o Atlas da violência 2020 “uma arma dentro de casa faz aumentar inúmeras vezes as chances de algum morador sofrer homicídio, suicídio ou morte por acidente (principalmente crianças)” . E assim, há uma grande preocupação como as medidas que vêm sendo implementadas desde 2019, pois mesmo com todas as evidências científicas favoráveis ao controle da circulação de armas de fogo o Brasil desde 2019 vêm implementando medidas jurídicas que estão desmontando a o Estatuto do Desarmamento. “Até o momento de consolidação do presente relatório (julho de 2020), haviam sido exarados onze decretos, uma lei e quinze portarias do Exército que descaracterizaram o Estatuto, geraram incentivos à disseminação às armas de fogo e munição, e impuseram obstáculos à capacidade de rastreamento de munição utilizada em crimes”.

O Sistema de Informação Sobre Mortalidade (SIM/DATASUS) ainda não disponibilizou os registros de óbito do ano de 2020. No entanto, acredita-se que haverá aumento nas taxas de mortalidade por suicídio em decorrência da pandemia da COVID-19 devido ao aumento do relato de sintomas como angústia, ansiedade e depressão e aumento do consumo abusivo de álcool e drogas. Realidade que pode estar associada ao aumento da violência estrutural, crise econômica e isolamento social.

Estudo realizado no Japão mostrou aumento das taxas de suicídio e mulheres durante a pandemia, muitas destas trabalhavam em setores da economia que foram mais impactados pela pandemia como turismo e varejo. Além disso, segundo a professora Michiko Ueda “muitas dessas mulheres são solteiras e vivem sozinhas que optaram por não se casar, desafiando os papéis tradicionais de gênero ainda persistentes no país” . Situação que as coloca em situação de maior vulnerabilidade, por terem menor rede apoio social.

São necessárias medidas de proteção socioeconômica às mulheres de maior vulnerabilidade social, assim como ações de educação em saúde com a ajuda da mídia e redes sociais para disponibilizar os canais existentes para o acesso à atenção psicossocial.

Segundo o Ministério da Saúde os locais para se buscar ajuda são:

– As unidades básicas de saúde mais próxima de casa;
– Os centros de atenção Psicossocial (CAPS) do seu município;
– Centro de Valorização da Vida (CVV) : telefone 188 ( ligação gratuita)

Outros materiais de apoio:

No nosso próximo texto discutiremos suicídios femininos no estado do Rio Grande do Norte no período de 2011 a 2020, e avaliaremos o possível impacto da pandemia nos suicídios no nosso estado.

Karina Cardoso Meira – Epidemiologista, professora da Escola de Saúde e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Eder Samuel  Oliveira DantasEnfermeiro, Doutorando em Saúde Coletiva pelo PPGSCOL/UFRN , coordenador da Residência Multiprofissional em Atenção Psicossocial do Hospital Universitário Onofre Lopes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (HUOL/UFRN).

Jordana Cristina de Jesus – Demógrafa, professora do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais (DDCA) e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

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