Análise do ONAS-Covid19 do PPGDem é destaque do Notícias da Manhã, da TV Ponta Negra

A análise sobre o perfil dos domicílios dos estudantes (6 a 14 anos) desenvolvido pelos docentes Jordana Cristina de Jesus e Ricardo Ojima no âmbito do Observatório do Nordeste para Análise Sociodemográfica da Covid-19 (ONAS-Covid19) do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) é destaque na reportagem do jornal Notícias da Manhã, da TV Ponta Negra (afiliada do SBT no Rio Grande do Norte) neste dia 06.04.2020.

 

Confira essa e outras análises demográficas também no ONAS-Covid19 [Observatório do Nordeste para Análise Sociodemográfica da Covid-19] https://demografiaufrn.net/onas-covid19

Informações de localização de celulares ajudam a medir o isolamento social no RN

O primeiro caso de infecção pelo novo coronavírus no Brasil foi confirmado pelo Ministério da Saúde no dia 26 de fevereiro, em São Paulo. Com o espraiamento do número de casos pelo território nacional, os estados começaram a decretar, paulatinamente, medidas de isolamento social para tentar conter o avanço da doença. Até o dia 4 de abril, o país já registrava mais de 10 mil casos confirmados e o número de óbitos por Covid-19 já superava a marca de 400.

Ainda não há vacina para conter essa pandemia que já produziu cerca de 64 mil mortos em todo o mundo. Em um contexto de incerteza em que pesquisadores e cientistas de todo o planeta estão correndo contra o tempo para descobrir uma forma de neutralizar essa doença, o isolamento social tem sido considerado a medida mais eficiente para se evitar o colapso dos sistemas de saúde do mundo. Como dizem, é preciso “achatar” a curva epidemiológica, distribuir os casos no tempo e assim evitar que muitas pessoas fiquem doentes ao mesmo tempo. E, com isso, evitar a sobrecarga de hospitais e da quantidade limitada de profissionais de saúde, pois mesmo que seja possível construir emergencialmente mais leitos, não seria possível formar profissionais de saúde no mesmo tempo.

No estado potiguar, em 18 de março a Governadora Fátima Bezerra decretou medidas de isolamento social em todo o estado. Pelo decreto, houve a suspensão das atividades escolares em estabelecimentos públicos e privados, o funcionamento do comércio, bares, restaurantes e demais atividades consideradas não essenciais à população. No dia 2 de abril, esse decreto foi prorrogado por mais 21 dias. No Rio Grande do Norte, até a manhã do dia 3 de abril, a Secretaria Estadual de Saúde confirmava 176 casos positivos para o novo coronavírus, 2.288 casos suspeitos e quatro óbitos.

Ainda que vários estados, e o próprio governo federal, tenham determinado isolamento social por meio de decretos, cessar a movimentação de pessoas nas ruas não tem sido uma tarefa simples. A Google disponibilizou um relatório denominado “COVID-19 Community Mobility Reports” com atualizações para 131 países e regiões sobre a circulação de pessoas para um conjunto variado de atividades, tais como, restaurantes, shopping centers, equipamentos públicos, parques, locais de trabalho, supermercados e farmácias e, também, circulação residencial. Muitos usuários de aparelhos celulares utilizam-se do sistema operacional Android, desenvolvido pela Google.

O “histórico de localização” é uma das ferramentas relacionadas ao sistema Android e, quando ativado (por padrão o sistema encontra-se desativado) pelo usuário, permite que os dispositivos móveis registrem no banco de dados do Google os locais onde o seu celular se encontra (para os usuários do sistema iOS, do iPhone, o registro só é feito quando ele usa o Google Chrome como navegador). Segundo a empresa, esses dados são armazenados em bancos de dados agregados de modo anônimo. As informações disponibilizadas para análise da mobilidade dos celulares pelo Google se referem ao período de 16 de fevereiro a 29 de março de 2020.

De acordo com informações do relatório, na média brasileira houve um aumento de 20% nos registros de circulação residencial. Ou seja, aumentou a participação de celulares que permaneceram dentro de suas casas. Uma tendência seguida por todas as unidades da federação. O estado do Rio Grande do Norte apresentou percentual similar (+20%) e se posicionou entre os cinco estados com maior registro da Google para essa situação.

Em localidades como parques (que inclui também visitas às praias), a redução da circulação de pessoas no estado potiguar foi de -74% e acima da média nacional (-70%). Com relação às estações de transporte público a redução na circulação de pessoas, segundo informações da Google, foi de -66% no Rio Grande do Norte. Nesse quesito, comparando com as demais unidades da federação, o estado potiguar ocupou a 15º posição. No que se refere às tendências de mobilidade nos locais de trabalho, a Google indicou uma redução de circulação de -33% para o Rio Grande do Norte, um valor levemente inferior à média brasileira (-34%).

Com base nesses dados, foi construído um Indicador de Circulação (Circulation Indicator) a partir da área de um gráfico de radar, onde as seis variáveis consideradas pela Google são sobrepostas em um plano polar e constituem um polígono fechado. Maiores informações o cálculo do indicador pode ser obtidas neste link. A Figura 1 apresenta a distribuição por estados e grandes regiões brasileiras para o Indicador de Circulação. Quanto maior o valor do indicador, maior a circulação de pessoas sugerida pelos registros de históricos de localização e, portanto, menor tendência de isolamento social. O estado do Rio Grande do Norte apresentou o quarto maior valor para os estados da região Nordeste.

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Figura 1: Indicador de circulação (Circulation Indicator) para Brasil, Unidades da Federação e Grandes Regiões, 16 de fevereiro a 29 de março de 2020. Fonte: COVID-19 Community Mobility Reports, Google.

Por outro lado, a Figura 2 indica que o padrão de circulação de pessoas no Rio Grande do Norte e no Brasil foi bastante parecido. Porém, o estado potiguar apresenta menor registro de atividades capturadas pela Google (menor área no gráfico de radar).

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Figura 2: Gráfico de radar: Indicador de circulação (Circulation Indicator), Rio Grande do Norte e Brasil, 16 de fevereiro a 29 de março de 2020. Fonte: COVID-19 Community Mobility Reports, Google.

Resguardadas as devidas limitações desses dados, que se referem a uma tecnologia nem sempre disponível à totalidade da população ou, ao menos, a função que permite a captura desses dados nem sempre são habilitadas por todos os usuários, essas informações podem ser fontes complementares importantes para entender a mobilidade diárias das pessoas. Identificar localidades com evidências de quebra de medidas de isolamento social pode auxiliar os governos para que eles atuem de maneira mais focalizada na proteção dos indivíduos ao risco de contrair o novo coronavírus. Ou seja, é possível concentrar os esforços de conscientização e informação sobre a importância das medidas de isolamento nos locais de maior urgência.

Luciana Lima: Professora adjunta do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e vice-coordenadora do Programa de Pós-graduação em Demografia (PPGDEM/UFRN).

Ivanovitch Silva: Professor adjunto do Instituto Metrópole Digital da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (IMD/UFRN) e vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica e de Computação (PPgEEC/UFRN).

Gisliany Alves: Graduada em Ciências e Tecnologia e em Engenharia de Computação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e mestre em Engenharia Elétrica e de Computação (PPgEEC/UFRN).

Confira essa e outras análises demográficas também no ONAS-Covid19 [Observatório do Nordeste para Análise Sociodemográfica da Covid-19] https://demografiaufrn.net/onas-covid19

Editorial | ONAS-Covid19 | 05.04.2020 | A primeira semana de confinamento e o que estamos fazendo

O Brasil superou (05.04.2020) a marca de 10 mil casos confirmados no acumulado. Sendo que 432 casos foram a óbito. A região Sudeste concentra cerca de 60% dos casos e o Nordeste, 16%. O Rio Grande do Norte contribui com 2,4% dos casos confirmados da Covid-19, segundo os dados da Plataforma Coronavirus do Ministério da Saúde nesta data (consulta realizadas às 10h00). Desde o dia 30 de março, o Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) deu início ao Observatório do Nordeste para Análise Sociodemográfica da Covid-19 (ONAS-Covid19) com o objetivo de elaborar análises baseadas em evidências empíricas prioritariamente para a região Nordeste e suas Unidades da Federação. As pretensões não são muitas, mas principalmente queremos oferecer informações baseadas em dados com fontes seguras e confiáveis para uma leitura crítica das variáveis populacionais que podem ser afetadas e que afetam a evolução do novo coronavírus na região.

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Casos diários novos da Covid-19. Fonte: Ministério da Saúde, em 05.04.2020 | 10h00.

Ao todo, nessa primeira semana (30.03 a 05.04), foram produzidos 18 textos de análise. Nossa página atingiu mais de 1,6 mil visitantes ao longo de quase sete dias, gerando quase 3 mil visualizações distintas. Associado ao site, a nossa página no Facebook (@ppgdem) contribuiu para a maior visibilidade das publicações, sendo a principal origem dos cliques que direcionam para o ONAS-Covid19.

Como afirmamos acima, os produtos publicados tem caráter de divulgação científica. Devemos continuar assim, tentando espalhar informação apoiada em dados seguros e tentando esclarecer suas limitações e potencialidades para compreensão da realidade social. Não é uma tarefa simples e nem de longe poderia cobrir toda a informação e abordagens distintas sobre o tema, pois trata-se de um momento em que novas informações chegam com grande velocidade e ainda há muito que se aprender sobre a Covid-19 e suas relações com a demografia. Os textos produzidos aqui, portanto, refletem as preocupações do momento e reagem às informações novas sobre as características da população com a pandemia do novo coronavírus.

A novidade para a próxima semana é o lançamento oficial do Podcast ONAS-Covid19 com uma playlist comentando os textos publicados. Cada autor produziu um breve depoimento informativo de forma a complementar ou realçar a informação produzida de forma escrita. Ampliamos a acessibilidade da informação e ao mesmo tempo tornamos mais interativa a conversa. Esperamos não produzir informação científica apenas da forma tradicional, dialogando só com os especialistas. Assim, os textos produzidos aqui não redundam em todo o conhecimento agregado à cada frente de discussão proposta. Dito isso, fica o convite para continuar seguindo nossas publicações para outras abordagens, às vezes sobre o mesmo tema e incorporando novas leituras.

Editorial | 05.04.2020 | Ricardo Ojima | Coordenador do ONAS-Covid19 | Programa de Pós-Graduação em Demografia | Universidade Federal do Rio Grande do Norte | A primeira semana de confinamento e o que estamos fazendo.

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Pelo menos 60% dos idosos do Nordeste possuem fatores de risco associados à Covid-19

À medida que o surto do novo coronavírus (Covid-19) avança os pesquisadores estão aprendendo mais sobre quais indivíduos correm maior risco de adoecerem gravemente – e até morrerem – da doença. Dados da Universidade Johns Hopkins, deste sábado (04.04.2020) indicam que a Covid-19 foi confirmada em mais de 1,1 milhão de pessoas e cerca de 64 mil óbitos em todo o mundo, e no Brasil, já são mais de 10 mil casos confirmados e 432 mortes.

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A Covid-19 é uma doença nova e as informações sobre fatores de risco para evoluções graves dela são limitadas. Com base nas informações disponíveis no momento e nos conhecimentos clínicos, idosos e pessoas de qualquer idade com condições médicas subjacentes podem estar em maior risco por causa da Covid-19. Um estudo publicado na semana passada na revista The Lancet Infectious Diseases examinou dados de indivíduos que testaram positivo para Covid-19 em 38 países e descobriram que o risco de morte pela doença aumentava a cada década de idade e para aquelas pessoas que apresentavam alguma condição clinica (morbidade) associada, tais como: hipertensão arterial, diabetes mellitus, doenças cardiovasculares, doenças respiratórias crônicas e câncer.

No Brasil, o cenário não é diferente. Segundo dados atualizados do Ministério da Saúde, observa-se ao menos um fator de risco associado em 79% dos óbitos ocorridos até o momento. Destes, cerca de 90% tinham idade igual ou superior a 60 anos. Segundo as estimativas populacionais do IBGE para 2019, no Nordeste a população idosa (com 60 ou mais anos) correspondia a cerca de 11,4% da população total. Neste cenário, destaca-se a Paraíba com (12%) e Bahia com (12%) e em direção oposta, Maranhão (10%) e Sergipe (9%).

Em relação as condições de saúde da população, estimativas da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS, 2013) apontavam que ao menos 61% dos idosos da região relataram terem algum diagnóstico médico para: hipertensão arterial, diabetes mellitus, doenças cardiovasculares ou câncer. Entre esses fatores, destaca-se a hipertensão arterial e diabetes mellitus. Conforme o gráfico da Figura 1, essas duas comorbidades são as mais comuns entre os idosos de todos os estados da região Nordeste, com maior ocorrência de hipertensão arterial na Paraíba (53%) e diabetes mellitus em Alagoas (24%).

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Figura 1. Distribuição dos principais fatores de risco, segundo UF,  para agravamento e óbito da COVID-19, na população com 60 anos ou mais. Nordeste, Brasil. Fonte: IBGE/MS, Pesquisa Nacional de Saúde (PNS-2013).

É importante notar que a presença de condições de saúde favoráveis ao agravamento e mortalidade da Covid-19 varia também de acordo com as diferentes faixas etárias dos idosos, conforme se observa na Figura 2. Mas a presença de condições crônicas explica apenas parcialmente a alta taxa de mortalidade em pessoas mais idosas. À medida que envelhecemos, nosso sistema imunológico enfraquece. Isso nos torna mais vulneráveis a infecções de todos os tipos.

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Figura 2. Fatores de risco, por faixa etária e estado. Nordeste, Brasil. Fonte: IBGE/MS, Pesquisa Nacional de Saúde (PNS-2013)

Quando o sistema imunológico se desenvolve em pessoas mais velhas, há também uma maior probabilidade de um fenômeno chamado síndrome de tempestade de citocinas (hipercitocinemia). Uma tempestade de citocinas é uma reação imune grave na qual o corpo produz células e proteínas imunes que podem destruir outros órgãos. Para muitos pacientes que morrem com a Covid-19 pode ser que seu próprio sistema imunológico, e não o próprio vírus, que leve ao golpe fatal.

As citocinas são pequenas proteínas liberadas por muitas células diferentes do corpo, incluindo as do sistema imunológico, onde coordenam a resposta do corpo contra infecções e desencadeiam inflamações . O nome ‘citocina’ é derivado das palavras gregas para célula (citocito) e movimento (kinos).

Tempestades de citocinas podem explicar por que algumas pessoas têm uma reação grave aos coronavírus, enquanto outras experimentam apenas sintomas leves. Eles também podem ser a razão pela qual as pessoas mais jovens são menos afetadas, uma vez que seus sistemas imunológicos são menos desenvolvidos e produzem níveis mais baixos de citocinas causadoras de inflamação.

Nas últimas duas décadas, muito se aprendeu sobre o diagnóstico e o tratamento das síndromes de tempestades de citocinas. Nas linhas de frente da resposta do Covid-19 é fundamental que os profissionais médicos estejam cientes da síndrome e preparados para identificá-la e tratá-la.

José Vilton Costa – Demógrafo, professor do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais (DDCA) e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

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Covid-19 no interior nordestino: saúde, agências bancárias e silêncios

Estamos sendo informados a cada momento sobre a pandemia da Covid-19. A imprensa tem feito o seu papel de apurar e divulgar, apresentando a diversidade de realidades e de enfrentamento à pandemia. Entretanto, na maioria das vezes, acompanha-se a evolução da doença com foco nas capitais e regiões metropolitanas. Há um relativo silêncio sobre o impacto sobre algumas regiões que já sofrem com ausências de serviços. Pouco se discute sobre o que se passa nas demais regiões do país. A ausência de notícias sobre localidades no interior não significa que a ocorrência de casos seja baixa, ou que a situação não seja preocupante. Ao mesmo tempo, pouco se discute sobre quais são as particularidades vividas nestes lugares, como a maior dificuldade em acessar os testes para o novo coronavírus (SARS-Cov-2) ou informações sobre a capacidade de atendimento da rede hospitalar.

É fato que os municípios no interior abrigam uma população considerável no Brasil. Somente na região Nordeste, 37 milhões de pessoas viviam fora das capitais ou de suas regiões metropolitanas, o que representa cerca de 65% da população da região, segundo as estimativas do IBGE para 2019. Diante desse cenário, questionamos: quais particularidades populacionais se apresentam como desafios ao enfrentamento da disseminação da Covid-19 nos municípios do interior nordestino?

Se inicialmente os casos da Covid-19 se concentravam nas capitais, já é possível perceber uma transmissão da Covid-19 em direção aos municípios localizados no interior. Assim, somente medidas conjuntas de isolamento social, acompanhamento da entrada de indivíduos de outras localidades ou barreira sanitária que diminua o fluxo intermunicipal poderão postergar a proliferação de casos e do contágio nessa direção. Sobre este ponto é relevante que os municípios se atentem às principais formas de chegada de indivíduos, como visitas de familiares, caminhoneiros ou médicos que atendem em hospitais e UPA em mais de um município (haja vista a ausência de médicos em diversos municípios do interior).

Aglomeração de pessoas - Covid-19

Se nas capitais a entrada da Covid-19 se deu inicialmente através dos voos internacionais infectando primeiramente as camadas socioeconômicas de mais alta renda, é provável que nos municípios do interior o contágio e a proliferação possa acontecer pelas agências bancárias e casas lotéricas. Dessa vez, passando a atingir as populações de menor poder aquisitivo. Isto porque no final e início de cada mês, época de pagamento de salário, aposentadoria, pensão, Bolsa Família, entre outros benefícios sociais, formam-se gigantescas filas e aglomerações de pessoas nos bancos e lotéricas. Sobretudo no caso das aposentadorias e o benefício de prestação continuada é grande o contingente de idosos que se deslocam da zona rural ou municípios menores para os maiores devido a ausência de agências bancárias. Esta é uma forma de mobilidade que potencializa o contágio, já que o porte dessas agências inviabiliza o distanciamento social recomendado de 1 até 2 metros.

Outra preocupação diz respeito à subnotificação de casos devido à falta de testes, realizados notadamente nas capitais e regiões metropolitanas foco da disseminação da Covid-19 no país, como é o caso dos municípios de São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza na região Nordeste. Ademais, quando os exames são realizados nos municípios do interior, é longa a espera para receber o resultado, pois grande parte dos laboratórios estão localizados nas capitais.

Caso não sejam tomadas as medidas de distanciamento social e redução de deslocamentos das pessoas entre municípios, o tratamento da população residente no interior nordestino torna-se preocupante pois, em geral, são desprovidas de leitos de internação. Para realizar os atendimentos/consultas normalmente já se deslocam para os municípios polos da região que, por sua vez, não suportam a demanda local. Em muitos casos não possuem leitos de UTIs. No Nordeste, o número de leitos por mil habitantes é de 1,7 em municípios do interior e 2,5 nas capitais e suas respectivas RMs, demonstrando a desigualdade da rede hospitalar dentro da região. Em alguns casos, como Sergipe, o número de leitos disponíveis na RM chega a ser 3 vezes maior quando comparado com os municípios do interior. Essa diferença é observada em todos os estados da região Nordeste, sendo que tais disparidades são mais intensas no Piauí, Pernambuco, Alagoas e Maranhão, além do estado do Sergipe. Cabe salientar que esta análise não envolve os leitos de Unidades de Tratamento Intensivo (UTI), que se encontram fundamentalmente nas capitais.

Leitos interior nordeste

Portanto, o foco das ações neste momento deve se centrar na prevenção da disseminação. No caso dos municípios do interior do Nordeste, isto significa acompanhar as possíveis formas de entrada da Covid-19 através do deslocamento de pessoas de lugares com casos diagnosticados, como é o caso das capitais. Vale tomar precauções também em relação aos visitantes, familiares, médicos, caminhoneiros ou outras pessoas que cheguem nesses pequenos municípios. Além disso, é fundamental evitar ou arrefecer a disseminação interna diminuindo o tempo de exposição das pessoas em filas de bancos e lotéricas que guardam um grande potencial de contágio e irradiação para os municípios vizinhos.

As precauções são essenciais, principalmente quando se considera que a capacidade de tratamento nos municípios do interior nordestino é menor quando comparado às RMs, podendo ocorrer que os seus leitos hospitalares fiquem exauridos em um menor espaço de tempo caso não se tomem as medidas preventivas recomendadas. Nesse contexto, o poder público nas três esferas de poder (União, Estados e Municípios) precisa estar preparados e articulados para o que possa vir acontecer e construir hospitais temporários/de campanha, reequipar hospitais fechados e ampliar o monitoramento através de postos de saúde e Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Enfim, preparar também as regiões mais carentes do país em termos de serviços essenciais.

Carla Craice da Silva – Demógrafa, professora do Instituto de Humanidades e Letras Malês (IHLM) da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB)

Silvana Nunes de Queiroz – Demógrafa, professora do Departamento de Economia da Universidade Regional do Cariri (URCA) e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

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A interiorização da Covid-19 no Nordeste: temos infraestrutura de saúde?

A disseminação em ritmo acelerado do novo coronavírus no Brasil traz inúmeros desafios à população e à gestão pública. Diante à escassez de recursos humanos, físicos e materiais, o risco de colapso do Sistema de Saúde é iminente caso não seja controlada a velocidade da disseminação da doença. Frente a este cenário, a OMS (e diversas outras organizações e governos) tem recomendado o isolamento total da população como a única medida eficaz no momento para o combate ao Covid-19.

No Brasil, além das dificuldades políticas e econômicas, apresenta-se uma dificuldade adicional do Ministério da Saúde e estados em conseguir equipamentos de proteção individual e ventiladores/respiradores mecânicos, insumos de grande importância para o combate ao  novo coronavírus. Este cenário, somado às desigualdades regionais históricas no Brasil, trazem consigo grandes desafios para a superação da pandemia.

No contexto dessas desigualdades, a região Nordeste apresenta grandes desafios devido à vulnerabilidade não apenas de sua população, mas dos escassos serviços de infraestrutura de saúde disponíveis em boa parte dos municípios. Com uma população de mais de 57 milhões (IBGE, 2019) na região, encontramos cerca de 29% (16,8 milhões) de habitantes que vivem em municípios considerados extremamente pobres. Em relação à infraestrutura de saúde, a região possui em média apenas 1,3 médicos por mil habitantes. São apenas 74,4 mil médicos para os nove estados da região (cerca de 82% vinculados ao SUS). Embora esteja dentro dos parâmetros recomendados pela OMS, essa distribuição é extremamente desigual e favorece as Regiões Metropolitanas (RMs) em detrimento aos municípios do interior. Excluídas as RMs a média cai para 0,5 médico por mil habitantes.

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Em relação ao número de leitos de UTI, dados do Centro Brasileiros de Estudos em Saúde (CEBES) apontam no Brasil uma média de 15,6 leitos de UTI para cada 100.000 habitantes, sendo no SUS apenas 7,1 leitos (abaixo do recomendado que seriam 10 leitos por 100.000 habitantes). Apenas os estados da Bahia, Paraíba e Pernambuco estão acima da média nacional. Dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES/DATASUS) para o ano de 2019 mostram que cerca de um terço dos municípios nordestinos (apenas 588) possuem respiradores/ventiladores, o que representa uma média de apenas 6,8 aparelhos por município. No caso das UTI’s adultas, a situação é ainda mais grave: apenas 5% dos municípios (94) possuem ao menos um (01) leito de UTI adulta. Uma média de apenas 3,3 leitos por municípios ou 62,3 leitos por município que dispõe do equipamento.

O mapa apresenta a distribuição espacial de alguns serviços de saúde, com foco na ausência dos principais equipamentos necessários para o tratamento dos casos graves da Covid-19. Nota-se uma concentração importante de municípios no interior do Piauí e da Paraíba sem a presença de médicos. No caso do Piauí a situação é ainda mais grave. Na Paraíba os municípios sem médicos são vizinhos a municípios que possuem médicos e leitos de UTI, mas no sul do Piauí (e na divisa com a região noroeste da Bahia) se observa um bolsão de municípios sem médicos (ou com poucos médicos), sem aparelhos respiradores/ventiladores e sem unidades de tratamento intensivo, razoavelmente próximas.

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Infraestrutura de saúde e casos confirmados da Covid-19. Fonte: CNES/Datasus; Ministério da Saúde.

Além dessas áreas, observa-se no interior do Rio Grande do Norte, no sul do Maranhão e em regiões dos estados da Bahia e Ceará, grandes extensões de área com municípios que não possuem respiradores e leitos de UTI adulta, sem falar que mesmo nas regiões em que existem, a situação já é insuficiente para atender a população destes respectivos municípios. Confirmando os achados do CEBES em que mostram que 30,5% da população unicamente dependente do SUS no Nordeste, 22,6% residem em regiões de saúde sem leitos de UTI.

O mapa ainda permite observar a distribuição espacial das ocorrências de infectados, segundo dados oficiais do Ministério da Saúde (até o dia 31 de março de 2020). Até o presente momento, há relativa concentração dos casos nas capitais e Regiões Metropolitanas. Mas já há indícios de um processo de interiorização das contaminações com significativos testes positivos em municípios do interior nordestino. Nesse sentido, faz-se fundamental dedicar profunda atenção à região Nordeste, em especial aos municípios menores do interior.

Dada a grade mobilidade da população e as intensas relações sociais e econômicas que os municípios do interior nordestino guardam com as respectivas capitais, a disseminação das Covid-19 deverá afetar fortemente a infraestrutura no interior. Diferentemente de outras enfermidades e outros momentos, onde a transferência para as capitais é comum, dessa vez talvez não haja tempo hábil ou capacidade para trazer todos os pacientes graves para as capitais. Mais do que nunca, precisamos investir numa emergencial redução das desigualdades regionais.

Jarvis Campos – Demógrafo, professor do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais (DDCA) e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Karina Cardoso Meira – Epidemiologista, professora da Escola de Saúde e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

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Novo coronavírus e condições de esgotamento sanitário no Nordeste

Recentes estudos apontaram que o novo coronavírus foi encontrado nas fezes de pacientes mesmo quando o mesmo não podia mais ser identificado nas amostras do trato respiratório. Segundo os estudos, mesmo nas amostras de estações de tratamento de esgoto foi possível detectar a presença do vírus. Ainda é cedo para afirmar que seja possível ser infectado quando se tem contato com água contaminada pela carga viral existente no esgoto não tratado e, tampouco se sabe como seria o devido tratamento para que não haja riscos. De toda forma, o contato humano com esgoto não tratado é um risco para outras formas de doenças infecciosas e, em situações de maior vulnerabilidade social, elevam a condição para condições graves de doenças diarreicas que podem levar ao óbito, principalmente em crianças. Sendo assim, conviver com condições de esgotamento sanitário inadequadas já seria uma situação de risco.

Esgoto sanitário

Considerando o potencial de contaminação pela Covid-19, torna-se então mais importante considerar as condições de vulnerabilidade ao novo coronavírus de uma grande parcela da população. São particularmente graves as situações onde os domicílios que se utilizam de formas de esgotamento sanitário precárias, como é o caso das valas comuns, direto em rios, lagos e mar ou outras formas diversas que não sejam o esgoto ligado à rede geral ou mesmo as fossas sépticas. Na região Nordeste são mais de 880 mil domicílios que se se valem dessas formas precárias de esgotamento, sendo o caso do Maranhão o mais grave com 12% dos domicílios nessa situação. No Rio Grande do Norte, são cerca de 15 mil domicílios em condições precárias. Podem representar uma parcela proporcionalmente pequena dos domicílios, mas ainda assim, em termos absolutos essa situação afeta uma grande quantidade de pessoas.

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Fonte: IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, 2018

As pessoas que vivem em domicílios com condições precárias de esgotamento são quase 3 milhões em todo o Nordeste. Associe-se a isso o fato de que, só nas Regiões Metropolitanas no Nordeste, são quase 3,5 milhões de pessoas que não dispõem mesmo tendo rede geral de abastecimento de água, essa água possui intermitência e não se apresenta de modo regular durante o mês. Sendo que 20% dos domicílios nas Regiões Metropolitanas Nordestinas nem possuem acesso à rede geral de abastecimento de água. Ou seja, uma combinação muito desfavorável para os casos onde não há esgotamento sanitário adequado e ao mesmo tempo sem acesso ao sistema geral de rede de água.

Por fim, além da situação imediata dessa parcela mais vulnerável da população, caso haja efetivo potencial de contaminação pelo novo coronavirus pelo contato com esgoto não tratado, cabe destacar que essas pessoas sendo contaminadas colocam em risco todo a sociedade. Trata-se, portanto, de uma preocupação de saúde pública. Que não se restringem apenas àqueles que se expõem diretamente ao risco de contaminação, mas do conjunto da sociedade. Se resolver os problemas de saneamento básico já eram medidas prioritárias antes desse momento de pandemia, agora se torna mais importante ainda buscar resoluções imediatas e permanentes para essa situação.

Ricardo Ojima – Demógrafo, professor do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais (DDCA) e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Jordana Cristina de Jesus – Demógrafa, professora do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais (DDCA) e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

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