Os efeitos indiretos da Covid-19 no Rio Grande do Norte | homens com até 60 anos morreram 33% mais do que o esperado para 2020 no RN

Para a avaliação da gravidade e intensidade da pandemia de Covid-19, dois indicadores são os naturalmente mais utilizados: os números de infectados e de óbitos. Em relação as mortes, especificamente, até o dia 07 de fevereiro de 2021, o Brasil já contabilizava mais de 230 mil mortos por Covid-19. No entanto, é importante ressaltar que esse número considera apenas os óbitos diretos pela Covid-19, ou seja, cuja causa de morte foi atribuída à doença. Sabe-se que uma parte desses registros é subnotificado, ou seja, de óbitos que podem ter sido decorrentes da Covid-19 e que não foram assim registrados pela ausência de testagem específica.

Porém, existem os efeitos indiretos dessa pandemia na mortalidade da população que são poucos enfatizados. Os efeitos indiretos na mortalidade podem ser entendidos como sendo aqueles óbitos cuja causa não foi diretamente o novo coronavírus, mas que provavelmente não ocorreriam em situações normais, de não pandemia, como por exemplo: sobrecarga dos hospitais e da infraestrutura médica assistencial; resistência pela busca de assistência médica; paralização de tratamento de doenças, como câncer; etc. Um exemplo recente e trágico desses efeitos indiretos da pandemia foi o ocorrido em Manaus no mês de janeiro/2021. Com o grande aumento da demanda de oxigênio devido aos infectados pela COVID-19, houve um desabastecimento desse insumo básico na capital amazonense. Nesse sentido, outros pacientes que não estavam hospitalizados em decorrência da Covid-19, mas precisavam do uso de contínuo de oxigênio, podem ter sido vítimas indiretas da Covid-19. O mesmo ocorre com a superlotação de leitos de UTI ou o adiamento/cancelamento de cirurgias.

O ano de 2020 teve um aumento significativo de mortes em comparação com anos recentes, segundo dados da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil). Devido ao crescimento vegetativo e o processo de envelhecimento da população seria esperado que ano após ano haja um aumento no número absoluto de mortes. Porém, devido aos efeitos diretos e indiretos da pandemia, o número de óbitos observados foi muito maior do que as tendências de anos anteriores apontavam. Análise anterior publicada aqui no ONAS já havia realizado uma análise do Excesso de Mortalidade como medida importante para entender os efeitos mais amplos da pandemia sobre a mortalidade geral do país.

O Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS) lançou o Painel de Análise do Excesso de Mortalidade por causas naturais no Brasil em 2020. De forma bastante sucinta, a metodologia empregada pelo Painel consiste na projeção dos óbitos que o Brasil esperava ter em 2020 (óbitos esperados) com base na tendência observada nos últimos 5 anos (2015-2019). Esse número de óbitos esperados em 2020 é comparado com o número de óbitos efetivamente observado no ano (sendo, inclusive, aplicadas técnicas de correção do sub-registro). A diferença entre o observado e o esperado é o “excesso de mortalidade” e pode ser atribuída, em grande medida, à pandemia de Covid-19. Ressalta-se que no estudo foram utilizados apenas os óbitos por causas naturais, excluindo as mortes por causas externas (como mortes violentas e de acidente de trânsito). Assim, esse texto busca detalhar os dados disponibilizados no painel do CONASS focando a sua análise especialmente para o estado do Rio Grande do Norte (RN) e considera os óbitos esperados e ocorridos a partir da confirmação da primeira morte por COVID-19 no Estado, que foi em 28 de março, que compreende o final da semana epidemiológica 13 e o começo da 14.

O RN apresentou um excesso de 3.108 mortes por causas naturais além do que era esperado para o ano de 2020. Isso representa um aumento proporcional na ordem de 21,8% em relação ao que era esperado. Ao desagregar esse dado por sexo e entre os grupos etários de “0 a 59 anos” e “60 anos ou mais”, verifica-se que o excedente de mortalidade foi sempre maior entre os homens. Apesar da mortalidade por Covid-19 ter um efeito maior sobre a população idosa, em termos proporcionais, o excesso de mortalidade considerando todas as causas naturais foi maior entre a população com menos de 60 anos (ver Gráfico 1). A diferença entre as mortes esperadas, seguindo a tendência dos anos anteriores, e o observado em 2020 para as pessoas do sexo masculino com menos de 60 anos no Rio Grande do Norte foi de 33%. Ou seja, é bem provável que, se não fosse a pandemia, cerca de mil homens com menos de 60 anos teriam deixado de morrer no RN em 2020.

No gráfico 2 pode-se verificar a evolução do excedente de mortalidade ao longo dos meses do ano de 2020 e por semana epidemiológica no Rio Grande do Norte. Percebe-se destacadamente que o excedente de mortalidade se concentrou entre as semanas epidemiológicas 20 e 36 (corresponde aproximadamente os meses de maio a agosto). Após esse período, com o a retração do contágio, houve uma proximidade maior entre os óbitos observados e esperados, mas voltando a distanciarem nas últimas semanas do ano, quando coincide com o recrudescimento da doença não só no estado potiguar, mas também em todo o Brasil.

Gráfico 2 – Óbitos observados e esperados por causas naturais em 2020, Rio Grande do Norte | Fonte: CONASS

Enfim, a pandemia da Covid-19 apresenta consequências que vão além da evolução da circulação do novo coronavírus. A partir da análise do “excesso de mortalidade” podemos dizer que a pandemia teve consequências muito mais extensas e afetou a mortalidade de outras causas naturais. Diante disso, a vacinação assume um papel mais importante ainda. Não se trata de uma medida individual. Não significa que eu, enquanto indivíduo, possa decidir correr o risco de contrair a doença por acreditar que os sintomas serão leves ou porque acredito que haja algum tratamento preventivo ou precoce. A Covid-19 afeta o sistema de saúde e o leito ocupado por uma internação que poderia ser evitada, tira o lugar de uma pessoa que tenha uma doença crônica. A vacina para a Covid-19 reduziria as infecções em termos coletivos e isso ajudaria a reduzir o impacto indireto da doença sobre as demais causas.

Mas enquanto não temos vacinas para todos, precisamos tentar manter as medidas de distanciamento social, uso de máscaras e higienização preventiva. É preciso reduzir o impacto da Covid-19 para que ela não continue, também em 2021, a afetar as mortes por outras causas. Por conta das infecções agora serem concentradas entre jovens, os dados sugerem que a segunda onda possa gerar um número menor de mortes diretas por covid-19 no agregado, mas se a segunda onda durar muitos meses, o impacto indireto deve ser tão preocupante quanto foi no ano de 2020.

Victor Hugo Dias Diógenes – Demógrafo, professor do Departamento de Finanças e Contabilidade (DFC) da Universidade Federal da Paraiba (UFPB) e doutorando do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Ricardo Ojima – Demógrafo, professor do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais (DDCA) e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Confira essa e outras análises demográficas também no ONAS-Covid19 [Observatório do Nordeste para Análise Sociodemográfica da Covid-19] https://demografiaufrn.net/onas-covid19

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