Adesão ao distanciamento social no RN e em Natal: respostas à reabertura econômica e à interiorização da COVID-19

Como parte do plano de reabertura gradual do comércio na capital do Rio Grande do Norte, a partir de 30 de junho foi autorizado o funcionamento de atividades não essenciais como as de informação, comunicação, agências de publicidade, salões de beleza, barbearias entre outros. No âmbito estadual, a partir de 1º de julho de 2020 foi anunciado o retorno de vários serviços e orientados por um cronograma de retorno das atividades econômicas que em certa medida coincide com o plano de reabertura previsto pelo município de Natal.

Em nota publicada em 03 de julho de 2020 com base em dados do relatório Google Community Mobility para alguns estados da Região Nordeste analisando o período de 15 de fevereiro a 22 de junho, verificou-se que a movimentação de pessoas para alguns estados  superou as expectativas para uma fase de reabertura gradual da economia. No caso do Rio Grande do Norte, que desde o dia 4 de junho encontrava-se sob a versão mais rígida entre todos os seus decretos de distanciamento social, a tendência geral de circulação de pessoas foi de declínio em um primeiro momento, mas com posterior retomada dos níveis de mobilidade ou ao menos de estabilização, a depender do tipo de local analisado.

Com a entrada do estado potiguar e sua capital Natal em uma fase de reabertura econômica e também com o processo de interiorização da COVID-19, qual tem sido a resposta da população em termos de distanciamento social?

Distanciamento social: o termômetro da retomada

A Figura 1 apresenta as tendências de mobilidade da população potiguar segundo categorias de atividades da Google e para o período de 15 de fevereiro a 5 de julho. Nota-se para o RN um aumento da mobilidade em locais de compras, de trânsito e sobretudo em supermercados e farmácias. Com o processo de reabertura econômica estadual observa-se nestes últimos que a circulação de pessoas alcançou níveis observáveis apenas em períodos anteriores à pandemia, ou seja, em um contexto de normalidade no estado. Embora esses estabelecimentos não estivessem proibidos de funcionar nos últimos meses, é possível que a maior circulação de pessoas advinda com a reabertura de parte do comércio tenha impulsionado a circulação em supermercados e farmácias em todo o estado. E sobretudo na primeira semana do mês, quando em geral a economia se apresenta mas aquecida com o pagamento dos salários aos trabalhadores.

Figura 1: Tendência de mobilidade no Brasil, segundo categorias de atividades da Google, Brasil, 15 de fevereiro a 05 de julho

A Figura 2 apresenta a tendência do indicador de isolamento social da In Loco para o Rio Grande do Norte e Natal e para um período que compreende a primeira semana de reabertura econômica em ambas as localidades.  Após o anúncio da reabertura econômica em 29/06, verifica-se tendência de queda no índice de isolamento social em Natal. Por outro lado, no caso da média estadual, a tendência observada foi de aumento nos valores desse indicador, e que já vinha se apresentando desde o dia 22 de junho, aproximadamente. Em Natal, os índices de isolamento social após a flexibilização foram de 43,4% em 29/06, passando para 41% em 30/6, e alcançando o valor de 39,5% na primeira sexta-feira do mês de julho. No sábado o índice de isolamento social na capital potiguar elevou-se para 42,7%, o que geralmente acontece nos finais de semana quando parte do comércio encontra-se fechado. No que se refere aos dados estaduais, do dia 30/06 ao dia 02/07 o índice de isolamento social se situou aproximadamente em torno de 40%, tendo se reduzido para 38,3% na sexta-feira (03/07) (dados não apresentados na Figura 2 que representa apenas a tendência da curva) e se elevado para 41% no sábado (04/07).

Figura 2: Tendência do indicador de isolamento social para o Rio Grande do Norte e o município de Natal, 01 de fevereiro a 04 de julho

Interiorização da COVID-19 e tendência de inversão do nível de adesão ao distanciamento social

Conforme demonstramos em notas prévias, quando a COVID-19 se torna mais presente no dia-a-dia das pessoas, a redução do contato entre elas tende a ser percebido com maior clareza como medida capaz de protegê-las. No caso do Rio Grande do Norte, ao longo do desenvolvimento da pandemia os maiores níveis de distanciamento social são observados para aqueles municípios que foram atingidos primeiro pela COVID-19, como Natal, Mossoró e Parnamirim. E os menores índices de distanciamento social para os municípios interioranos e com poucos casos registrados da doença.

Conforme ilustrado pela Figura 3, em Caicó e Currais Novos, dois municípios que têm apresentado aumento na incidência da COVID-19,  a tendência foi de crescimento no indicador de isolamento social desde a segunda metade de junho.

Figura 3: Tendência do indicador de isolamento social para municípios selecionados do Rio Grande do Norte, 01 de fevereiro a 04 de julho

Pela primeira vez desde o início da pandemia, o nível de distanciamento social nesses dois municípios se aproximou dos índices de isolamento de municípios de maior porte como Parnamirim e Mossoró. Pode ser que o processo de interiorização da doença e a maior percepção de risco dos indivíduos esteja delineando uma tendência de aumento da adesão ao distanciamento social nas cidades do interior, e mesmo em face do processo de reabertura econômica em todo o estado.

Contexto e reabertura econômica em Natal: quem sai e quem permanece em distanciamento social?

A Figura 4 apresenta dados epidemiológicos para Natal, desde a data em que foi confirmado o primeiro caso de COVID-19 até o dia 02 de julho, além de informações sobre distanciamento social da capital em comparação ao estado potiguar. São apresentados o número de casos e óbitos confirmados por dia e suas respectivas tendências no tempo, e o número de reprodução da COVID-19, que representa o número médio de pessoas que tem sido infectadas por alguém contaminado. Essa medida encontra-se intimamente relacionada ao distanciamento social, uma vez que ela tende a ser mais elevada quanto maior for o nível de interação entre as pessoas. Um valor igual a dois para essa medida significa que uma pessoa infectada em média transmite a COVID-19 para outras duas, e quando se atinge valores menores que o valor unitário, e por várias semanas, significa que a doença se propaga com uma taxa decrescente e se encontra sob controle. Os dados epidemiológicos utilizados foram obtidos na página na internet da Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap/RN) .

Figura 4: Dados epidemiológicos da COVID-19 e de distanciamento social  para Natal, 12 de março a 2 de julho

Conforme é possível verificar, o número de casos e de óbitos pela COVID-19 no estado vêm apresentando tendência de decrescimento na capital. Chamam a atenção as grandes variações diárias nesses dados, o que pode estar relacionado a fatores como a concentração em determinadas datas da confirmação de casos e óbitos tratados como suspeitos, e também, problemas de subnotificação.

No que se refere ao número de reprodução da COVID-19, até o fim de abril havia um alto nível de transmissibilidade na capital (valores iguais ou superiores a 2), mas que decresceu para patamares menores nos meses subsequentes. Ainda assim, é  importante mencionar que valores entre um e dois nessa medida também são preocupantes, pois indicam que a doença continua a se propagar na população, ainda que a uma velocidade menor. E apesar de em algumas datas do período analisado o número de reprodução da doença ter inclusive se situado abaixo do valor unitário, a tendência descrita por ele não se apresenta estável, ou seja, pelos dados e período considerado a COVID-19 na capital ainda não se apresenta sob controle. 

Sob esse contexto de tendência na redução do número de casos e de óbitos pela COVID-19 e oscilação do número de reprodução da doença em níveis mais baixos do que o verificado no início da pandemia, o distanciamento social não decresceu de maneira uniforme entre os bairros da capital.

Conforme ilustrado na Figura 5, na primeira semana pós reabertura econômica em Natal, chama a atenção a Zona Oeste que independente do dia da semana apresentou os menores índices de distanciamento social do município. Pode ser que nos bairros dessa região, por suas características mais populares, residem uma parcela importante de trabalhadores empregados em atividades econômicas autorizadas a funcionar, como salões de beleza, papelarias, comércio de vestuário e armarinhos. Bairros na Zona Sul como Ponta Negra, na Zona Leste, como Areia Preta, e Lagoa Azul, na Zona Norte, também se destacaram quanto aos baixos índices de distanciamento social apresentados durante a primeira semana de julho.

Figura 5: Índice de isolamento social por bairros de Natal, 29 de junho a 4 de julho

Por fim, a Figura 6 apresenta a média de distanciamento social alcançada pelos bairros de Natal  na primeira semana de reabertura de parte do comércio ou seja, de de 29/06 a 04/07. Verifica-se que o bairro com menor índice de distanciamento social foi o Bom Pastor (37%), localizado na Zona Oeste, e o maior, Capim Macio (47%), localizado na Zona Sul de Natal. Conforme anteriormente apresentado, os bairros da Zona Oeste alcançaram os menores níveis de distanciamento social entre todos (valores entre 41% e 37%). Os bairros da Zona Norte também apresentaram baixos índices de distanciamento social no período analisado. Este foi o caso de Nossa Senhora da Apresentação (41%), cujo valor no indicador de isolamento social foi o menor daquela área. O bairro de Potengi que reúne 13% dos casos confirmados e 14% dos óbitos por COVID-19 na cidade apresentou na média um índice de isolamento social de 43%, um dos maiores valores da Zona Norte. Assim como identificado para níveis municipais, a adesão ao distanciamento social tende a ser praticado em bairros que experimentam altos índices da doença. Nesses casos, é possível que a experiência concreta na comunidade de vivência de casos e óbitos pela COVID-19 eleve a percepção coletiva de que as interações sociais favorecem um maior contágio pelo vírus.

Figura 6: Média do índice de isolamento social por bairros de Natal na primeira semana de reabertura econômica no município

Conclusões

De um modo geral, pode-se dizer que durante a primeira semana de reabertura econômica a capital segue tendência de redução no distanciamento social, enquanto no estado a tendência tem sido de continuidade do ritmo de aumento no índice de isolamento social da In Loco. É possível que o processo de interiorização da COVID-19 no estado e a maior redução dos casos e dos óbitos nos municípios maiores, estejam delineando uma tendência de inversão no nível de adesão ao distanciamento social entre municípios do interior e da região metropolitana. Municípios interioranos que antes apresentavam baixos índices de distanciamento social como como Caicó e Currais Novos, apresentam tendência de aumento nessa métrica, enquanto em Natal e Parnamirim a tendência tem sido de redução. Para o estado como um todo, dados da Google indicaram alta circulação e em níveis pré-pandemia para locais como supermercados e farmácias após a reabertura econômica no RN. É possível que a liberação do funcionamento de algumas atividades econômicas tenha potencializado a mobilidade nesses estabelecimentos, o que requer das autoridades maior fiscalização do cumprimento de normas sanitárias para que se evite a contaminação de clientes e funcionários desses locais. E sobretudo nas próximas etapas da flexibilização do distanciamento social, quando mais pessoas circularão nas cidades.

No que se refere à capital, durante a primeira semana de reabertura econômica o distanciamento social se reduziu de maneira localizada na capital potiguar. Os deslocamentos de trabalhadores das regiões mais vulneráveis socialmente da cidade parecem explicar o menor nível de distanciamento social observado em bairros mais populares como os da Zona Oeste e Norte. Por sua vez, em zonas mais abastadas como a Zona Sul e que possivelmente contam com maior parcela de trabalhadores em home office, o nível de distanciamento social permaneceu alto, conforme observado desde o início da pandemia.

Embora os níveis de reprodução da COVID-19 sejam baixos, ainda há grande oscilação no nível de transmissão da doença, o que requer cautela às autoridades em estabelecer seus protocolos de reabertura econômica e à população para retomar  suas atividades cotidianas. No dia 7 de julho, o governo estadual decidiu não prosseguir com seu plano de reabertura, tendo em vista o aumento da taxa de ocupação em leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Contudo, no caso específico de Natal, a prefeitura optou em manter seu calendário de reabertura, autorizando o funcionamento de um maior número de atividades econômicas,  além de permitir a reabertura de templos religiosos. Nas próximas semanas será possível verificar a resposta da população de Natal à continuidade do processo de abertura do comércio, e em nível estadual, a resposta da população do interior ao avanço da COVID-19.

Ivanovitch Silva – Professor adjunto do Instituto Metrópole Digital da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (IMD/UFRN) e vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica e de Computação (PPgEEC/UFRN)

Luciana Lima – Professora adjunta do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (DDCA/UFRN) e vice-coordenadora do Programa de Pós-graduação em Demografia (PPgDEM/UFRN).

Gisliany Alves – Graduada em Ciências e Tecnologia e em Engenharia de Computação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e mestre em Engenharia Elétrica e de Computação (UFRN).

Marcel Ribeiro-Dantas – Pesquisador no Institut Curie (UMR168), Mestre em Bioinformática (UFRN) e doutorando na L’école doctorale informatique, télécommunications et électronique (EDITE) da Sorbonne Université (Paris).

Confira essa e outras análises demográficas também no ONAS-Covid19 [Observatório do Nordeste para Análise Sociodemográfica da Covid-19] https://demografiaufrn.net/onas-covid19

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