A panaceia do home office na pandemia: evidências para a região Nordeste

Desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou, em 11 de março de 2020, oficialmente a pandemia da Covid-19, muitos aspectos da nossa vida passaram por ajustes. Desde a utilização de máscaras até a necessidade de manter distanciamento social para evitar e reduzir as chances de contágio, mudamos diversas formas de nos relacionar com o mundo. Uma dessas formas, e talvez uma das mais relevantes, foi a nossa relação com o mercado de trabalho. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que o desemprego (taxa de desocupação) deva aumentar em até 5 pontos percentuais na América Latina e Caribe, levando a um recorde histórico na região. Uma dessas mudanças tem sido aventada como a antecipação do futuro do trabalho e, em certa medida, tem sido considerada como uma mudança positiva e que veio para ficar: o home office.

O home office, ou teletrabalho, não é exatamente uma novidade no mundo corporativo. Já vem sendo discutido e implementado gradual e parcialmente em algumas empresas, particularmente as do ramo tecnológico. Embora aparente ser uma alternativa desejável para muitas pessoas, trabalhar em casa tem algumas vantagens e inúmeros desafios. E há diferenciais de gênero importantes na capacidade de enfrentar esses desafios, como já discutimos em análise anterior aqui no ONAS. De todo modo, muitas discussões e reportagens passaram a analisar o home office como a antecipação do futuro do trabalho. Afinal, a pandemia da Covid-19 teria acelerado uma tendência de migração do trabalho tradicional para um novo cenário em que as pessoas trabalham cada vez mais de suas casas. Mas será que é isso mesmo? De certo, as tendências são globais e particularizadas por setores da economia, serão homogêneas no Brasil?

Segundo os dados da PNAD-Covid (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 7 e 13 de junho tínhamos 8,5 milhões de pessoas trabalhando em home office no Brasil. Parecem números que justificam essa panaceia do trabalho remoto, mas vamos analisar algumas das suas características e particularidades. Para o Brasil, durante o mês de maio, em meio à pandemia, 13% dos trabalhadores estavam atuando em trabalho remoto (teletrabalho), mas essa distribuição é muito maior na região Sudeste, onde chega a quase 17% dos trabalhadores. As demais regiões apresentam proporções parecidas, em torno de 10%, exceção da região Norte com apenas 6,9% (Figura 1).

Figura 1

Assim, o que podemos concluir é que o trabalho em home office é ainda uma tendência muito tímida no conjunto do mercado de trabalho brasileiro e muito mais rarefeito nalgumas regiões brasileiras. Afinal, esse home office que estamos experimentando na pandemia não é uma mudança de paradigma, mas uma contingência. Se esse é o futuro do trabalho, como alguns parecem acreditar, pode ser por uma percepção muito particular de sua área de atuação ou, talvez, do seu nível de escolaridade. Mesmo entre a população mais escolarizada (com pós-graduação, mestrado ou doutorado) do Nordeste, cerca de 49% da população ocupada estava trabalhando em casa (Figura 2). Aqueles com nível médio ou superior incompleto eram apenas 6,9% dos trabalhadores e os de superior completo eram 32% que estavam em maio realizando suas atividades laborais de casa. Portanto, o trabalho remoto é um privilégio de poucas pessoas mais escolarizadas e de ocupações bem específicas. Nesse contexto, o trabalho mais comum entre aqueles que mantinham o home office era o de “professor da educação infantil, de ensino fundamental, médio ou superior”, que representa 26% dos trabalhadores trabalhando de casa.

Figura 2

Em relação à sua estrutura por sexo e idade, o teletrabalho no Nordeste é predominantemente feminino, com 56% das pessoas ocupadas nessa condição. Tendência que ocorre influenciada pela grande participação de professores que, em sua grande maioria (68,5%), são do sexo feminino. A idade mediana é de 38 para os homens e 39 para mulheres, que também pode ser observada pela pirâmide etária que têm um perfil de trabalhador mais jovem. E, sobretudo, entre os homens, parece haver uma redução importante do home office a partir dos 40 anos. A questão racial também apresenta uma distinção significativa, pois enquanto 13,8% dos trabalhadores brancos continuaram trabalhando em casa, entre os pretos e pardos essa proporção era de apenas 8,7%.

Figura 3

É possível verificar, a partir de uma modelagem estatística, que a escolaridade possui efeitos substanciais na diferenciação dos trabalhadores quanto às chances de estarem em home office em decorrência da pandemia. No Nordeste, pessoas que têm a mesma idade, mesmo sexo e mesma raça possuem 54 vezes mais chances de estarem trabalhando em home office se tiverem ensino superior completo do que as pessoas com as mesmas características, mas que tenham apenas concluído o ensino médio. Se o nível de escolaridade for pós-graduação, as chances são 108 vezes maiores. Isso ocorre porque o nível de escolaridade está intimamente ligado ao tipo de trabalho que, por sua vez, delimita as possibilidades de transferência do trabalho feito fora de casa para dentro de casa. 

Em termos de arranjos domiciliares, o perfil desses trabalhadores não se diferencia de modo significativo do restante da população. É importante ressaltar, entretanto, que nesse caso a conciliação entre as atividades do trabalho e do lar se apresenta como um desafio, que poderia já existir antes da pandemia, mas que se torna ainda mais evidente com a suspensão de aulas e de serviços de apoio remunerado. Entre os trabalhadores em teletrabalho no Nordeste, 10% estão em arranjos monoparentais, ou seja, são mães (na vasta maioria) ou pais que cuidam sozinhos de seus filhos e que estão fazendo isso concomitantemente com o trabalho remoto. Temos, ainda, 46% deles que compõem arranjos domiciliares com cônjuge e filhos e 22% em famílias estendidas, que contam com parentes além no núcleo familiar principal, como avós. O que se observa é que 44,4% dos nordestinos que estão em teletrabalho possuem crianças com até 14 anos em casa. Essas crianças têm, em média, 7 anos de idade, o que aponta para a necessidade de conciliação entre as atividades de trabalho remunerado e as atividades domésticas e de cuidados e, em alguns casos, também com as atividades educacionais à distância dessas crianças. 

Figura 4

Em artigo recente publicado aqui no ONAS, discutimos os dados que apresentam o dilema enfrentado pela população em relação às medidas de distanciamento social e o mercado de trabalho. Entre os estados do Nordeste, o percentual de pessoas afastadas do trabalho durante o mês de maio de 2020 variou de um mínimo de 14,5% no Alagoas até o máximo de 22% no Ceará. A maioria desses afastamentos (mais de 80%) em todos os estados, foi justificado como medidas de distanciamento social decorrente da pandemia.

Um ponto que destacamos é que consideramos baixos os percentuais de pessoas afastadas, mas mais grave ainda foi termos identificado que mais da metade destes afastamentos ocorreram sem remuneração. Portanto, a capacidade dessa população manter níveis de distanciamento elevado durante este período pode ter sido fortemente comprometido por necessidade absoluta e não por falta de consciência. E, como pudemos ver, entre os que permaneceram trabalhando, poucos estavam em teletrabalho no Nordeste. O fato de parte significativa desses profissionais serem docentes é importante, pois não apenas reduziu a circulação desses profissionais, mas também reduziu importante parcela de jovens circulando e reunidos nas salas de aula.

O trabalho em casa (home office) ainda é uma realidade muito distante da esmagadora maioria dos brasileiros. Mais ainda dos trabalhadores das regiões Norte e Nordeste. E, mesmo que seja bem-vindo na percepção de boa parte dos trabalhadores nessas condições, trata-se de um grupo muito específico de profissionais. Do ponto de vista analítico, o que a pandemia da Covid-19 deve trazer ao mundo do trabalho no Brasil e, principalmente em nossa região, é uma mudança importante na forma de interpretar as taxas de desocupação. Em um primeiro momento, talvez esses índices não mudem muito (podendo até diminuir), pois uma parte importante das pessoas têm deixado de procurar emprego. Cerca de 30% das pessoas que não procuraram emprego no Nordeste o deixaram de fazer devido à pandemia da Covid-19, sendo que entre elas, 80% declarou que gostaria de ter conseguido um emprego. Ou seja, enquanto não temos condições sanitárias seguras para a livre circulação de pessoas, muitos deixarão de procurar emprego diretamente por conta da pandemia.

Ricardo Ojima – Demógrafo, professor do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais (DDCA) e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Jordana Cristina de Jesus – Demógrafa, professora do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais (DDCA) e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Confira essa e outras análises demográficas também no ONAS-Covid19 [Observatório do Nordeste para Análise Sociodemográfica da Covid-19] https://demografiaufrn.net/onas-covid19

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