Comparativo da cobertura da vacinação nas Unidades da Federação e Capitais Nordestinas

Diante do agravamento das contaminações e, consequentemente, de óbitos por Covid-19 em todo o país, a velocidade da vacinação tem sido um dos aspectos mais urgentes e que vem causando grande ansiedade por toda a população. A situação se agrava na medida em que a capacidade hospitalar também atinge o seu limite. Houve um crescimento inédito de leitos de UTI no país ao longo destes últimos meses e a situação chega ao limite de crescimento por falta de recursos humanos especializados (profissionais de saúde intensivistas) e da própria capacidade física e de insumos hospitalares. Infelizmente, o Brasil não dispõe de diversificação de fabricantes de vacinas e, por isso, está limitado à capacidade produtiva ou das importações das vacinas Coronavac e Astrazeneca. As duas únicas vacinas já em aplicação no país.

Neste sentido, esta nota apresenta uma análise sobre os dados de vacinação compilados até o dia 20 de março de 2021. Os dados são provenientes das secretarias estaduais de saúde e foram organizados pela plataforma Brasil.IO. Embora os dados possam ser desagregados até a escala de municípios, para entendermos o quadro geral e o comparativo regional, as análises se focarão nas Unidades da Federação do Nordeste e as capitais e particular atenção será dada ao caso do Rio Grande do Norte, como é habitual nas análises aqui no ONAS.

Como proposto pelo Plano Nacional de Imunização, a vacinação começou pela aplicação das primeiras doses disponíveis aos profissionais de saúde no Rio Grande do Norte (Figura 1), assim como nas demais localidades. Verifica-se que apenas em meados de fevereiro iniciam-se as aplicações de modo predominante pelo critério de idades. Mesmo assim, ainda ocorre aplicação de primeiras doses em profissionais de saúde ao longo de todo o período de modo a buscar atingir a cobertura completa deste grupo que é dinâmico.

Figura 1

O primeiro ponto a se destacar é o fato de que estamos acompanhando a “velocidade” da vacinação através de um indicador que pode nos enganar. Em geral, vemos as pessoas discutindo que em tal lugar a vacinação “já chegou nos 70 anos” ou que “ainda está em 75 anos”. Para quem está esperando a sua vez, a liberação pelo sistema de saúde de que sua idade já está apta a receber a vacina pode mesmo ser um alívio e a “contagem regressiva” do ponto de vista individual deve mesmo ser essa. Entretanto, para além de avaliar em que idade a vacinação “já chegou”, precisamos saber a cobertura dessa vacinação. Ou seja, para passar para o próximo grupo da fila de prioridades precisariamos (teoricamente) ter concluído o grupo anterior.

Não entraremos aqui na análise detalhada dos grupos de profissionais de saúde, quilombola e indígenas e idosos institucionalizados. Esses grupos seguem uma lógica distinta por motivos de logística e também de dinamismo da ocupação (pessoas que antes não eram prioritários passam a ser, pois começaram trabalhar na linha de frente depois do início da vacinação, por exemplo). Vamos nos ater aos grupos de idade de idosos em geral, pois se trata do maior contingente de pessoas dentre os critérios de grupos prioritários e é de fato o perfil populacional que causa a maior expectativa.

O que entendemos aqui como cobertura é a quantidade de pessoas de cada grupo de idade que já foi vacinada, pelo menos com a primeira dose, dentre o total de pessoas em cada grupo de idade. Um primeiro ponto que merece atenção: qual o número de pessoas em cada grupo de idade? O denominador. A última informação sobre a população efetivamente captada foi o Censo Demográfico 2010. De lá para cá, com certeza, a população mudou. A dinâmica demográfica é complexa e afetada por diversos fatores e, para isso, existem as projeções demográficas. Com base em modelos estatísticos, matemáticos e demográficos é possível fazer projeções que consideram as variáveis demográficas e ter uma estimativa da população em anos futuros. O IBGE, por lei, realiza estimativas populacionais em anos não censitários para fornecimento dos dados ao Tribunal de Contas da União e servem para distribuição dos recursos dos Fundos de Participação dos Municípios, por exemplo. Entretanto, o último dado disponível é para o ano de 2019. Assim, utilizamos aqui as projeções desenvolvidas por pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Demografia e outros. Com isso, temos os dados de população para o ano de 2021 por sexo e idade para municípios, microrregiões e Unidades da Federação. Para saber mais sobre essas projeções, consulte o site do Laboratório de Estimativas e Projeções Populacionais da UFRN (LEPP).

As pirâmides etárias das Unidades da Federação do Nordeste abaixo ilustram a distribuição da população por sexo e idade e, em azul, a participação de cada grupo de idade e sexo de pessoas que já receberam a primeira dose da vacina. Percebe-se que a participação dos grupos populacionais em idades mais avançadas é maior e uma pequena participação de pessoas mais jovens (entre 20 e 59 anos), com mediana na faixa dos 35 a 39. E uma maior cobertura entre as mulheres. Entre a população entre 20 e 59 anos essa participação é majoritariamente derivada dos profissionais de saúde que são predominantemente mulheres, como já discutimos anteriormente aqui no ONAS.

Ressalta-se que não utilizamos a pirâmide etária com todas as idades, pois as vacinas até o momento não são aplicadas para crianças e, por isso, a base da pirâmide inicia no grupo de idade de 20 anos. Por isso, não é interessante pensar em termos da relação entre doses e a população total. Diferenças na distribuição da população por idade tendem a afetar a interpretação do indicador construído sem levar em conta, por exemplo, o processo de envelhecimento da população.

Em relação aos grupos mais idosos, a Paraíba se destaca com uma cobertura de 95% entre as pessoas com mais de 80 anos de idade, seguido de perto pelo Piauí e o Rio Grande do Norte, com 89% e 87%, respectivamente. Cinco dos nove estados do Nordeste apresentam uma cobertura de mais de 80% nesse grupo de idade e destaca-se o fato do Maranhão e o Ceará com coberturas bem abaixo da média. Um aspecto importante a se destacar aqui é a questão do registro dos dados, pois eventualmente essas baixas coberturas podem estar associadas ao atraso de registros de vacinação e a não digitalização de parte deles. Mas de toda forma, esses são os dados disponíveis no registro de cada Unidade da Federação e a própria transparência no acesso aos dados de vacinação é um ponto fundamental para ampliar a adesão e mobilização da sociedade ao ritmo da vacinação.

De modo geral, o ritmo de cobertura da vacinação em termos dos grupos de idade segue um ritmo semelhante em todas as Unidades da Federação do Nordeste quando consideramos a cobertura. Entre as capitais, entretanto, há variações importantes. Salvador, Recife e João Pessoa se destacam com uma boa cobertura da primeira dose entre a população com mais de 70 anos. Do outro lado, Aracaju, Natal e Fortaleza apresentam coberturas da população acima de 70 anos abaixo dos 50%. Como já mencionamos, isso pode ser devido à atraso no registro das informações, mas como planejar a sequência da campanha sem os dados atualizados?

Em termos gerais, o gargalo parece ser a disponibilidade de vacinas, pois conforme podemos ver no gráfico abaixo, um período longo entre o início da vacinação e a última atualização analisada aqui teve uma baixa disponibilidade da vacina da Oxford-Astrazeneca. A Coronavac-Butantã corresponde a 64% das doses aplicadas nesse período e foi basicamente a vacina aplicada aos profissionais de saúde do primeiro grupo, mas a complementação da Oxford-Astrazeneca é fundamental para manter os níveis de vacinação elevados, como podemos perceber no gráfico abaixo.

A recente autorização do Ministério da Saúde para deixar de reservar as doses de vacina destinadas à segunda dose deve acelerar o ritmo da vacinação, entretanto, fica o alerta para que o ritmo de produção e distribuição pelo governo federal seja constante para garantir o intervalo de tempo necessário para cada uma das vacinas. O cuidado com a logística de distribuição do Governo Federal deve ser maior ainda para que não haja descontinuidade do fornecimento, como ocorreu nesse período passado. Os estudos de eficácia das vacinas foi baseado na aplicação de duas doses, portanto, não há como saber (até o momento) qual seria a eficácia das vacinas nas pessoas que ficarem apenas com a primeira dose por um intervalo de tempo maior do que o recomendado, sobretudo, neste momento onde há uma alta dos casos registrados.

Um alerta importante é que se evite cair na tentação de “baixar” nos grupos de idade sem antes ampliar a cobertura da vacina nos grupos mais idosos. São os mais idosos os grupos mais vulneráveis e, em geral, com mais comorbidades. A sensação de que a vacinação está acelerada devido aos grupos de idade liberados serem mais jovens pode acarretar uma vacinação incompleta entre os idosos mais idosos. O Brasil é um país com uma grande experiência em campanhas de vacinação em massa e é referência internacional, entretanto, em geral as campanhas de vacinação ocorrem quando já estão disponíveis os estoques de vacina. Não é o caso.

Pela primeira vez, inicia-se uma campanha de vacinação sem segurança no abastecimento de doses de vacinas. A dependência de apenas duas fabricantes de vacinas em um momento em que todos os países concorrem para compra de vacinas é um gargalo importante para que a velocidade da aplicação de vacinas aumente. A falta de uma coordenação e campanha nacional de divulgação maciça também dificulta a informação chegar aos diversos grupos populacionais. Afinal, as pessoas desses grupos mais vulneráveis precisam ter segurança de que haverá doses para se deslocarem aos postos de saúde. O medo de se contaminar é justificado, dado o avanço crescente dos casos de contaminação nas últimas semanas. E diante de tantos registros de casos de falta de doses e longas filas de espera, essa insegurança pode inibir que os grupos com menor mobilidade (idosos mais idosos) se desloquem com frequência ao posto de vacinação. A estrutura urbana e a segregação socioespacial podem ser elementos que afetem a mobilidade e o acesso à informação sobre os grupos de vacinação.

Enfim, dadas as inúmeras variáveis complexas que interferem no ritmo de vacinação, uma questão é fundamental: comunicação e transparência. Em municípios de menor população, com estrutura urbana mais adensada e menos segregados talvez seja mais fácil fazer a informação chegar e mobilidade dos mais idosos seria facilitada. De toda forma, é fundamental diversificar os meios de comunicação para atingir uma cobertura ampla dos grupos de idade mais avançados. Realizar campanhas massivas de comunicação pela TV, Rádio, Redes Sociais e, nos lugares mais dispersos e de baixa renda, até a utilização de carros de som poderia ser uma estratégia de baixo custo e com efetividade. O que menos podemos deixar acontecer, é criar mais um elemento de tensão no processo da vacinação nas escalas locais e regionais. A articulação entre os governos estaduais e municipais é fundamental para que haja uma adesão e apoio da população neste processo e momento conturbado que vivemos.

Ricardo Ojima – Demógrafo, professor do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais (DDCA) e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Confira essa e outras análises demográficas também no ONAS-Covid19 [Observatório do Nordeste para Análise Sociodemográfica da Covid-19] https://demografiaufrn.net/onas-covid19

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