Um estudo recente publicado na revista Notas de Población, editada pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), analisa as transformações na migração interestatal no Brasil durante o século XXI. A pesquisa tem como autores a docente Silvana Nunes de Queiroz e o discente Ricardo Monteiro de Carvalho, ambos vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em conjunto com a pesquisadora Rosana Baeninger, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O trabalho investiga a distribuição espacial da população brasileira com base nos dados dos censos demográficos de 2000, 2010 e 2022, abrangendo os fluxos migratórios dos períodos de 1995-2000, 2005-2010 e 2017-2022.

Os dados extraídos dos censos apontam para um processo de descentralização migratória no território nacional. Historicamente, a dinâmica demográfica brasileira caracterizou-se por um padrão concentrador, no qual a região Sudeste, em especial os estados de São Paulo e Rio de Janeiro, atuava como o principal polo de atração populacional. As informações mais recentes indicam uma perda relativa da centralidade dessas metrópoles tradicionais, bem como o declínio das fronteiras agrominerais na região Norte como eixos estruturantes do sistema de atração. Ambas as regiões registraram reduções nos volumes de imigração interestatal e aumentos relativos nas saídas de população no período mais recente.
A região Nordeste apresenta uma reconfiguração na sua dinâmica migratória, evidenciada pela redução de suas perdas populacionais. O saldo migratório negativo da região caiu de -764 mil pessoas no período de 1995-2000 para -248 mil entre 2017 e 2022. Estados como Paraíba, Ceará e Bahia aproximam-se do equilíbrio entre entradas e saídas ou registram inversão do sinal migratório. Essa mudança demográfica está associada ao aumento da capacidade de retenção populacional, ao fortalecimento econômico de cidades intermediárias e ao fenômeno da migração de retorno.
Simultaneamente à mudança no Nordeste e à perda de atração do Sudeste, as regiões Sul e Centro-Oeste consolidam-se como novos polos de atração e retenção de migrantes no país. A região Sul, por exemplo, ultrapassou o Centro-Oeste no volume absoluto de imigrantes, passando de 610 mil no período 1995-2000 para 966 mil entre 2017 e 2022. Outro aspecto demográfico central identificado no estudo é a predominância da rotatividade migratória. Esse conceito demonstra que existe um equilíbrio relativo entre entradas e saídas de pessoas nos territórios, caracterizando uma mobilidade menos definitiva e pautada por trajetórias circulares e reversíveis.
A migração interestatal no Brasil atual opera sob uma lógica espacial mais distribuída e seletiva. As trocas populacionais entre o Nordeste e o Sudeste, que no passado eram marcadas por um fluxo de mão de obra unidirecional, assumem agora um caráter bidirecional, refletindo transformações na estrutura produtiva e na organização do território nacional. Este cenário de redistribuição espacial instiga a reflexão contínua sobre a formulação de políticas públicas territoriais e sua capacidade de acompanhamento das novas rotas de mobilidade e da reorganização das redes urbanas brasileiras.
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