A mortalidade por causas externas (que reúne agressões, acidentes de transporte terrestre e lesões autoprovocadas na Classificação Internacional de Doenças – CID) atua como um freio sobre a transição demográfica brasileira. Quando um país avança no processo de envelhecimento populacional, espera-se que os ganhos de sobrevivência se consolidem em todas as idades. No entanto, o peso desproporcional dessas mortes não naturais, sobretudo entre homens jovens, a partir dos 15 anos e concentrado entre os 20 e 29 anos, interrompe trajetórias de vida na sua fase mais produtiva, gerando impactos profundos na dinâmica social e na estrutura demográfica das regiões.

Para dimensionar essa perda, a análise demográfica utiliza instrumentos como as tábuas de mortalidade com múltiplos decrementos e o cálculo de Anos de Vida Perdidos. Essa metodologia foi utilizada na tese de doutorado da pesquisadora Ana Edimilda Amador no Programa de Pós-Graduação em Demografia da UFRN para simular cenários e mensurar quantos anos a população ganharia em longevidade caso as mortes violentas e acidentais fossem integralmente evitadas. Além disso, ao corrigir os subregistros de óbitos e redistribuir causas com intenção indeterminada a partir dos dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM/DataSUS) e dos Censos do IBGE, obtém-se uma fotografia mais realista da magnitude do fenômeno no território nacional.
A distribuição espacial dessas perdas revela um processo nítido de desigualdade regional entre os anos 2000 e 2019. Enquanto o Sudeste apresentou queda progressiva nas taxas e no total de anos de vida perdidos ao longo do período, as regiões Norte e Nordeste vivenciaram um movimento inverso de interiorização e elevação da mortalidade por causas externas masculinas. Em 2010, por exemplo, se essas causas de mortalidade hipoteticamente fossem eliminadas, resultaria em um acréscimo superior a quatro anos na expectativa de vida ao nascer dos homens no Norte e no Nordeste, evidenciando como a violência afeta diretamente os indicadores gerais de desenvolvimento humano e saúde pública.
O efeito demográfico da perda precoce de vidas masculinas compromete também o aproveitamento do bônus demográfico. A persistência de elevadas taxas de mortalidade prematura exige que o planejamento governamental articule políticas de segurança pública, prevenção viária e saúde mental orientadas por evidências demográficas territoriais, integrando a vigilância epidemiológica a intervenções intersetoriais de preservação da vida. Essas e outras discussões estão no episódio 6 da quinta temporada do Rasgaí, um podcast do Programa de Pós-Graduação em Demografia da UFRN que busca trazer os resultados de pesquisas em demografia e áreas afins para mostrar a interdisciplinaridade e a ciência das populações de uma forma mais abrangente e objetiva. O Rasgaí está disponível pelo Spotify e outras plataformas de áudio.
Você pode conhecer a tese completa no Repositório Institucional da UFRN.






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