Editorial | ONAS-Covid19 | 31.05.2020 | Morte e vida do ‘homo academicus’: entre a “vulgarização do saber” e a divulgação científica

A evolução da pandemia da Covid-19 no mundo e no Brasil parece suscitar um debate sobre a popularização do conhecimento científico. O discurso que cresce entre as esferas políticas e governamentais é de que, no enfrentamento à covid-19, deveríamos nos orientar pela ciência. Questões como o chamado isolamento vertical ou amplo, uso de determinados medicamentos para tratamento da doença, efeitos colaterais dos medicamentos e da própria doença, aspectos sociais e econômicos derivados, etc. São inúmeros os debates que seguem hoje ganhando espaços nos telejornais e nas mídias digitais.

Mas apesar do avanço considerável sobre a discussão da importância da divulgação científica e a popularização do conhecimento científico nos últimos anos, ainda há um dilema que precisa ser enfrentado dentro do próprio campo científico. Talvez um falso dilema entre popularização e “vulgarização” do conhecimento científico que ainda parece impedir uma evolução maior deste processo de retorno social dos investimentos em ciência. Nos termos de José Reis, havia (e talvez ainda haja) um abismo entre a tradição isolacionista do pesquisador e a difusão da informação do jornalismo.

De um lado, os cientistas, muito ciosos da precisão da informação até mesmo em minúcias de nenhum interesse público e, de outro, os jornalistas, mais estimulados pelo essencialmente novo e capaz de atrair os leitores. Pode-se dizer que em alguns centros se cavou um profundo fosso entre ciência e jornalismo, como se a notícia científica se apequenasse ou prostituísse quando veiculada na imprensa.

Entrevista com José Reis, em “Ciência e Público”

Mais recentemente, há esforços de ambos os lados. O jornalismo cada vez mais especializado na cobertura científica e pesquisadores buscando um diálogo menos ensimesmado. Mas ainda não parece ser uma tarefa sem efeitos colaterais, sobretudo no movimento dos pesquisadores em direção ao público não especializado. Não entrar nas minúcias ainda é visto no âmbito acadêmico como vulgarização do conhecimento científico e constrange, sobretudo os jovens pesquisadores, a reproduzir o conhecimento verticalizado para seguir os protocolos estabelecidos pelo campo científico, nos termos de Bourdieu, do Homo Academicus.

Desconstruir a caricatura do cientista maluco que só fala consigo mesmo

O desafio é fazer a ruptura geracional. Formar novos pesquisadores que tenham sensibilidade para a popularização da ciência e que saibam distinguir entre as minúcias e a mensagem principal para o público não especializado. Dessa forma, evita-se a vulgarização pejorativa do conhecimento científico e constrói-se uma imagem menos mitológica ou caricata do pesquisador. O esforço deveria ser de ambos os lados, mas parece que o jornalismo científico (embora ainda prevaleça a percepção mitificada da atividade científica) já está bem mais desenvolvido do que a formação de pesquisadores com sensibilidade para divulgação. Aparentemente ainda são raros os programas de pós-graduação que incluem essa temática em seus currículos.

Talvez a pandemia da Covid-19 possa servir como um ponto de inflexão nesse movimento. Direcionar esforços para a sistematização de modelos de divulgação científica que não seja dependente dos esforços individuais de pesquisadores, mas que seja um projeto abrangente de formação. É nessa direção que o projeto de extensão “Observatório do Nordeste para Análise Sociodemográfica (ONAS)” busca se articular. Um movimento que se soma a diversos outros, como por exemplo, o Sala de Ciência (SCi/UFRN) na direção de sistematizar a divulgação científica, estimular jovens pesquisadores e tornar a ruptura geracional factível. Com certeza, já temos alguns bons frutos nessas nove semanas de projeto, pois já são vários os alunos que assinaram análises publicadas no ONAS e outros tantos estão em produção neste exato momento. E o que mais nos deixa animados, a maioria das propostas é de iniciativa espontânea. Talvez haja futuro para um novo homo academicus.

Editorial | 31.05.2020 | Ricardo Ojima | Coordenador do ONAS-Covid19 | Programa de Pós-Graduação em Demografia | Universidade Federal do Rio Grande do Norte | Morte e vida do homo academicus: entre a “vulgarização do saber” e a divulgação científica

Confira essa e outras análises demográficas também no ONAS-Covid19 [Observatório do Nordeste para Análise Sociodemográfica da Covid-19] https://demografiaufrn.net/onas-covid19

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