Desigualdades na adesão ao distanciamento social no município de Natal (RN)

A startup In Loco desenvolveu um Índice de Isolamento Social[1] para que as autoridades brasileiras de diversas esferas possam acompanhar a adesão da população às recomendações de ficar em casa durante a pandemia por COVID-19. Esse índice varia entre zero e um, e quanto maior o seu valor, maior a proporção de pessoas que permaneceram em suas residências respeitando o distanciamento social [1]. Para a sua construção, a In Loco utiliza um banco de dados de informações agregadas e anônimas da movimentação de 60 milhões de aparelhos celulares. De acordo com essa empresa, os dados são provenientes de aplicativos parceiros instalados voluntariamente  pelos  usuários, que podem ou não permitir o envio de suas informações [1,2].

Também segundo a In Loco [3], diversas administrações estaduais e municipais brasileiras estão adotando o indicador de isolamento social como instrumento de gestão no combate ao novo coronavírus. Ademais, iniciativas envolvendo pesquisadores de universidades têm desenvolvido dashboards particularizados que permitem o acompanhamento do distanciamento social não apenas por parte dos gestores como também pela  sociedade civil  [4,5]. O indicador de isolamento social da In Loco também tem sido incorporado nas análises sobre a adesão ao distanciamento social em diversas partes do país, e em comparação a outras fontes de informações que também utilizam a geolocalização de dispositivos móveis como base [2,6-8].

Evolução diária do indicador de isolamento social em Natal: uma tendência decrescente

Analisando a evolução diária do indicador de isolamento social para o município de Natal de 01 de fevereiro a 30 de abril (Figura 1, linha azul), observa-se que os maiores valores foram alcançados em dias de domingo e em feriados, quando em geral as pessoas ficam mais em casa. Considerando as datas posteriores ao primeiro decreto estadual para enfrentamento da pandemia (linha tracejada vertical vermelha), o maior valor de distanciamento social foi alcançado em 22 de março, o primeiro domingo após a publicação do decreto (68,3%). Quando já estava em vigência o segundo decreto estadual que, entre outras medidas, flexibilizou o  funcionamento de setores específicos do comércio e da indústria (linha tracejada preta) [9], o menor valor registrado foi em 30 de abril, véspera do feriado estendido do Dia do Trabalho: 38,6%. Quando analisamos a tendência do indicador retirando dele o efeito dos dias da semana (linha laranja), verifica-se que a adesão ao distanciamento social foi maior logo após o anúncio dos decretos do estado potiguar e também da união (que data de 17 de março), porém, com tendência de redução nas semanas subsequentes. Essa característica de uma adesão inicial elevada que não se sustenta no tempo, é a mesma observada para o Brasil e para o próprio estado potiguar [10]. Nota-se também que em nenhum período da série analisada os índices de isolamento chegaram a 0,7 (ou 70%), considerado um nível ideal de distanciamento social a ser alcançado [11].

Figura 1: Indicador de isolamento social para Natal – dados brutos e tendência dessazonalizada (Tendência seguida pelo indicador sem os efeitos dos dias da semana (oscilações de sazonalidade))

Desigualdades na adesão ao distanciamento social por bairros de Natal 

A Figura 2 ilustra a evolução do indicador de isolamento social da In Loco para os 36 bairros de Natal do dia 24/04 ao dia 30/04. Quanto mais claras as cores dos mapas, maiores os níveis de adesão ao distanciamento social. Conforme mencionado anteriormente, o mapa que se refere a um dia de domingo (26) apresentou as cores mais claras em relação aos demais. Contudo, para esse dia, alguns bairros se destacaram com cores mais escuras, ou seja, apresentaram mais pessoas que saíram de casa. São exemplos: Mãe Luiza, Areia Preta e Praia do Meio, localizados na Região Administrativa Leste, e Guarapes, Felipe Camarão, Bom Pastor e Quintas localizados na Região Administrativa Oeste.   No período considerado, os menores valores no índice de isolamento social (cores mais escuras) foram observados no dia 30, véspera do feriado do Dia do Trabalhador em 01 de maio. Naquela data, o Governo do Estado do RN e Prefeitura de Natal efetuaram pagamento de suas respectivas folhas. Aliado à proximidade do feriado estendido, isso pode ter contribuído para um maior nível de deslocamento da população em praticamente todos os bairros do município  [12,13].

Figura 2: Indicador de isolamento social para bairros de Natal – quanto mais claro, maior o nível de distanciamento social

Comparando a adesão ao distanciamento social por Região Administrativa (Leste, Oeste, Norte e Sul) do município de Natal, observa-se que no dia 24 de abril (sexta-feira) a Região Administrativa Norte apresentou o maior nível de isolamento social em comparação às demais, com uma adesão de 48%. Na sequência, o nível de isolamento social dela aumentou para 50%, porém, em comparação às demais, essa região se tornou a segunda em termos de adesão ao distanciamento social, e assim se manteve até o dia 28/04 (terça-feira).  No dia 29/04, a Região Administrativa Norte alcançou o primeiro lugar entre as regiões analisadas com um nível de isolamento de 53%. No entanto, na véspera do feriado do dia 01 de maio, o valor do índice para essa região caiu para 39% e ela voltou a ocupar a segunda colocação no ranqueamento das regiões administrativas (Figura 3).

Figura 3: Ranqueamento do indicador de isolamento social por Região Administrativa – quanto maior, melhor o nível de adesão ao distanciamento social

Na maior parte do período considerado, a Região Administrativa Sul obteve os maiores valores no índice de isolamento social, e a Região Administrativa Oeste, os menores. É possível que o perfil sociodemográfico diametralmente opostos dessas duas regiões tenha levado a esse resultado. Por exemplo, na região Sul se encontram localidades com os maiores índices de qualidade de vida da cidade (mensurado pelo Índice de Desenvolvimento Humano – IDH), como por exemplo, partes dos bairros de Candelária, Lagoa Nova e Capim Macio. Já na Região Administrativa Oeste, áreas localizadas dentro dos bairros Nordeste, Dix-Sept Rosado e Planalto apresentam os menores valores de IDH de Natal [14]. É possível que as melhores condições de vida dos moradores da Região Administrativa Sul oportunizem, por exemplo, a realização de atividades laborais e de aquisição de bens e serviços por meio de internet, favorecendo o maior cumprimento do distanciamento social dessas pessoas frente aos moradores de regiões cujas condições de vida são menos favorecidas.

Realizando uma análise por bairros de cada Região Administrativa, verifica-se para a região Norte uma grande oscilação entre eles: Igapó que atingiu o maior nível de distanciamento social em 24/04 (50%), no último período analisado (30/04) passou para a quarta colocação (39,6%) no ranqueamento. O bairro Salinas que era o último colocado no primeiro ponto no tempo (46%), chegou a alcançar um nível de distanciamento social de 54,4% em 29/04, mas na sequência esse percentual se reduziu para 39,8%, embora ele tenha passado a ocupar a  terceira posição em 30/04.

Figura 4: Ranqueamento do indicador de isolamento social na Região Administrativa Norte – quanto maior, melhor o nível de adesão ao distanciamento social

No caso da Região Administrativa Sul, as oscilações de valores entre os bairros foram menores. O bairro de Pitimbu alcançou o maior valor entre os bairros daquela região (65,8%) em 26/04, e que se aproximou mais do valor de 70% que representa o nível de distanciamento social ideal. O bairro de Nova Descoberta apresentou os menores valores do índice, chegando a registrar 36,8% de distanciamento social em 30/04.

Figura 5: Ranqueamento do indicador de isolamento social na Região Administrativa Sul- quanto maior, melhor o nível de adesão ao distanciamento social

Assim como o observado para os bairros da Região Administrativa Norte, houve grande oscilação entre os bairros da região Leste no que se refere ao alcance de valores no índice de isolamento social. Santos Reis apresentou os maiores valores nos dois primeiros pontos no tempo, mas terminou a série analisada na quinta posição, com um nível de distanciamento social de 37,2% em 30/04. Nessa data, Praia do Meio (35,5%), Areia Preta (35%) e Rocas (34,8%) foram os últimos colocados, e Cidade Alta (40,6%), Lagoa Seca (40,5%) e Barro Vermelho (39,5%) apresentaram os maiores níveis de distanciamento social.

Figura 6: Ranqueamento do indicador de isolamento social na Região Administrativa Leste – quanto maior, melhor o nível de adesão ao distanciamento social

Por fim, também verificou-se oscilações entre os dez bairros da Região Administrativa Oeste. O bairro Nordeste alcançou as primeiras posições na sexta-feira (45,3% em 24/04) e na véspera do feriado do Dia do Trabalhador (44,8% em 30/04), enquanto  bairros como o das Quintas alcançou a liderança ao menos uma única vez (45,6% em 28/04). No final de semana, o  bairro Cidade Nova foi o que apresentou o maior nível de distanciamento social: 48,1% no dia 25/04 (sábado) e 59,6% no dia 26/04 (domingo).

Figura 7: Ranqueamento do indicador de isolamento social na Região Administrativa Oeste- quanto maior, melhor o nível de adesão ao distanciamento social

Conclusões

Com base no indicador de isolamento social disponibilizado pela In Loco, foi possível realizar uma análise diária para Natal, Regiões Administrativas e bairros para este município. Informações em nível intramunicipal, conforme as utilizadas nesta nota, revelam que há uma importante variabilidade interna ao cumprimento das medidas de distanciamento social e que deve ser considerada para o sucesso das políticas de combate ao avanço da doença.

Com base nas análises realizadas foi possível verificar também que Natal apresenta a mesma tendência brasileira e do próprio estado: adesão efêmera  ao distanciamento social seguida por tendência de queda no cumprimento das recomendações para que as pessoas permaneçam em suas casas. Os valores apresentados em todos os níveis de agregação (município, Região Administrativa ou bairro) foram muito baixos e bem distante do valor de referência de 70% de distanciamento social a ser almejado. Os resultados encontrados mostram que uma parte considerável da população está mantendo a mesma rotina de antes da pandemia, tendo em vista as tendências de aumento do distanciamento social nos finais de semana e redução nos dias úteis.

No que se refere às desigualdades entre regiões administrativas e bairros, sugere-se que em localidades com melhores indicadores socioeconômicos a população possui maiores condições de permanecer em suas casas do que em bairros cujos indicadores sociodemográficos apontam para uma maior vulnerabilidade. O relacionamento desses indicadores ao de distanciamento social e em nível intramunicipal são fundamentais para identificar as necessidades desses indivíduos para melhor protegê-los do contágio pela COVID-19 e evitar o colapso do sistema de saúde. Distanciamento social não deve ser um privilégio, mas um direito assegurado a todos os cidadãos.

Gisliany Alves – Graduada em Ciências e Tecnologia e em Engenharia de Computação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e mestre em Engenharia Elétrica e de Computação (UFRN).

Luciana Lima – Professora adjunta do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (DDCA/UFRN) e vice-coordenadora do Programa de Pós-graduação em Demografia (PPgDEM/UFRN).

Ivanovitch Silva – Professor adjunto do Instituto Metrópole Digital da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (IMD/UFRN) e vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica e de Computação (PPgEEC/UFRN).

Leonardo Bezerra – Professor adjunto do Instituto Metrópole Digital da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (IMD/UFRN) e membro do Programa de Pós-graduação em Tecnologia da Informação (PPgTI/UFRN).

Rafael Gomes – Professor adjunto do Departamento de Informática e Matemática Aplicada da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (DIMAP/UFRN) e doutor em Engenharia Elétrica (UFRN).

Marcel Ribeiro-Dantas – Pesquisador no Institut Curie (UMR168), Mestre em Bioinformática (UFRN) e doutorando na L’école doctorale informatique, télécommunications et électronique (EDITE) da Sorbonne Université (Paris).

Referências

[1] In Loco. <https://www.inloco.com.br/pt/>. Acesso em 07/05/2020.

[2] Peixoto, P.S. et al. Potential dissemination of epidemics based on Brazilian mobile geolocation data. Part I: Population dynamics and future spreading of infection in the states of Sao Paulo and Rio de Janeiro during the pandemic of COVID-19. medRxiv 2020.04.07.20056739; doi: https://doi.org/10.1101/2020.04.07.20056739.

[3] In Loco. <https://content.inloco.com.br/blog/cientistas-de-dados-na-luta-contra-a-covid-19>. Acesso em 07/05/2020.

[4] Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS) <https://covid.lais.ufrn.br/#comportamento-social>. Acesso em 07/05/2020.

[5] IME-USP. <https://www.ime.usp.br/~pedrosp/covid19/>. Acesso em 07/05/2020.

[6] Endo et al. #FiqueEmCasa: Monitorando as tendências de isolamento social na cidade de Caruaru. <http://caruaru.upe.br/blog/>. Acesso em 07/05/2020.

[7] Endo et al.#FiqueEmCasa: Monitorando as tendências de isolamento social em Pernambuco e na Região Metropolitana do Recife (RMR). <http://caruaru.upe.br/blog/>. Acesso em 07/05/2020.

[8] Silva et al. Tendências de distanciamento social na Região Nordeste e no estado da Bahia utilizando dados da Google e da In Loco. <https://covid19br.org/main-site-covida/wp-content/uploads/2020/05/0105_BA_NE.pdf>. Acesso em 07/05/2020.

[9] Diário Oficial do Rio Grande do Norte. <http://diariooficial.rn.gov.br/dei/dorn3/docview.aspx?id_jor=00000001&data=20200423&id_doc=680833>. Acesso em 05/05/2020.

[10] Silva et al. Distanciamento social em fase de declínio sustentado? Uma análise utilizando dados de localização da Google para Brasil, Nordeste e Rio Grande do Norte. <https://demografiaufrn.net/2020/05/06/distanciamento-social-declinio-br-ne-rn/?fbclid=IwAR2C-9yNuXYOcA7uNrDE38XGTq2iFmjP4OII67ZLJ096uHCKVl5FXI-9hkY>.

[11] UNACAST. <https://www.unacast.com/post/unacast-updates-social-distancing-scoreboard>.Acesso em 07/05/2020.

[12] Portal G1. <https://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2020/04/29/servidores-do-rn-recebem-ultima-parcela-do-salario-de-abril-nesta-quinta-30-diz-governo.ghtml>. Acesso em 07/05/2020.

[13] Prefeitura do Natal <https://www.natal.rn.gov.br/noticia/ntc-32940.html>. Acesso em 07/05/2020. [14] Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil <http://www.atlasbrasil.org.br/2013/pt/home/>. Acesso em 07/05/2020.


[1] Os autores agradecem à In Loco a disponibilização das informações utilizadas nesta nota.

Um comentário sobre “Desigualdades na adesão ao distanciamento social no município de Natal (RN)

  1. Excelente artigo! Traz um panorama bem esclarecedor sobre a situação no nosso município, ao mesmo tempo em que demonstra a importância da ação do Estado para garantir que as classes mais pauperizadas tenham acesso a uma renda mínima que possibilite o respeito ao isolamento social. Infelizmente, a atual política econômica, embasada na ideia de Estado Mínimo, não garante assistência adequada a essa população.

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