O descumprimento do distanciamento social e a expansão dos casos de Covid-19 em Natal: pressões na capital e o que vem do interior

Estudo divulgado no início de abril por especialistas da Universidade de Harvard, apresenta cenários com sugestões de medidas a serem adotadas pelo governo brasileiro para o combate ao coronavírus. O artigo alerta sobre a possibilidade de colapso na infraestrutura de saúde pública do país, já para as próximas semanas, especialmente em relação aos leitos de UTI’s nas capitais.

Em análise anterior no ONAS-Covid19, mostramos dados do CEBES para a Região Nordeste, que apontam para uma média de 15,6 leitos de UTI para cada 100 mil habitantes, dos quais apenas 7,1 leitos a cada 100 mil são pertencentes ao SUS (abaixo do recomendado). Em relação às UTI’s adultas, em 2019 apenas 5% dos municípios nordestinos possuíam ao menos um leito, sendo uma média de 3,3 leitos por municípios do Nordeste.

Por outro lado, as capitais nordestinas dispõem de melhor infraestrutura, mas já sofrem com a disseminação em ritmo acelerado da Covid-19. Em 14 de abril, Fortaleza já era a 2ª capital do país com a maior taxa de mortalidade pela Covid-19 (https://glo.bo/3ewT48Y) e a ocupação de leitos de UTI chegou ao limite em Fortaleza e no Ceará. Em Pernambuco, 80% dos novos leitos de UTI’s já estão ocupados. Dados do Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde (CNES, de dezembro de 2019), mostram que 37,5% dos leitos de internação dos municípios do Nordeste se concentram nas noves capitais da região. Como resultado, já havia uma grande mobilidade de pessoas do interior para as capitais.

Essa situação foi agravada pelo encolhimento significativo do número de leitos observado nesta última década no país. A Figura 1 apresenta os fluxos de pessoas para internação por municípios, considerando as pessoas que possuem doenças pré-existentes que aumentariam o risco de morte pela Covid-19 (doenças cardiovasculares, diabetes, doença respiratória crônica, hipertensão e câncer) apenas durante o mês de julho de 2019 (CNES/DataSUS, 2019). Foram representados apenas os fluxos com no mínimo 100 pessoas.

Figura 1

É possível observar o reduzido fluxo entre municípios interioranos, em face ao grande volume de pessoas que se deslocam para as capitais para internação, inclusive fluxos de pessoas de municípios interioranos bem distantes das capitais. O volume dos fluxos de pacientes observado na figura abaixo é significativo se considerarmos, por exemplo, que em julho de 2019 as nove capitais nordestinas contavam com 3.699 leitos de UTI adulto (CNES/DataSUS). Dito isso, corre-se o risco de que os pacientes da Covid-19 reproduza a tendência dos deslocamento rumo às capitais.

Assim, se a situação das capitais pode se agravar pela pressão recebida (e parte dela não contabilizada) dos municípios do interior, perguntamos: qual o cenário atual da disseminação do coronavírus no município de Natal/RN? Natal, como outros municípios, vem enfrentando dificuldades na efetivação das medidas de isolamento social. A despeito dos esforços, campanhas de divulgação e dos decretos para reduzir a aglomeração de pessoas em diversos estados e no RN, há uma tendência de aumento da circulação para algumas atividades específicas.

O vídeo abaixo mostra a evolução dos casos confirmados de Covid-19 nos bairros de Natal entre 31 de março e 12 de abril. Além do número de casos, dados fornecidos pela Rede e Instituto Observatório da Violência (OBVIO) permitiram analisar espacialmente a relação entre a evolução dos casos de Covid-19 e as ocorrências policiais relativas ao descumprimento dos decretos de distanciamento social durante o período, infrações estas cometidas por estabelecimentos comerciais, turistas, pequenos estabelecimentos e aglomerados de pessoas que se reúnem em pequenas festas e comemorações.

Fonte: Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS); Secretaria Municipal de Saúde de Natal (SMS).

A localização das ocorrências registradas por descumprimento do decreto de isolamento social é um indicativo de onde estão ocorrendo aglomerações que podem potencializar a velocidade de contágio da Covid-19. Pelo vídeo dá para perceber uma relação espacial entre as aglomerações de ocorrências registradas por descumprimento ao distanciamento e os casos confirmados de Covid-19, em Natal. O epicentro dos casos confirmados do coronavírus está localizado na Zona Leste do município, enquanto as ocorrências policiais relativas ao descumprimento do decreto de isolamento estão mais dispersas nos municípios, de modo que o aumento e a expansão dos casos do Covid-19 em Natal segue a direção da concentração dessas ocorrências policiais, especialmente na Zona Sul (em Capim Macio e Ponta Negra, e em menor medida em Neópolis), além do Alecrim e Cidade Alta.

Na Zona Norte, destacam-se os bairros de Pajuçara, Potengi, Nossa Senhora da Apresentação e Igapó, que também registraram um crescimento dos casos de Covid-19, ainda que num ritmo menor em relação à Zona Sul. Na Zona Oeste, Quintas, Bom Pastor e Cidade da Esperança são os bairros onde se verifica um aumento dos casos de coronavírus, acompanhado do aumento das aglomerações de ocorrências por descumprimento do distanciamento social. Devido ao fato de que a Covid-19 chegou à região através de pessoas que estiveram fora do país, inicialmente o perfil socioeconômico dos casos confirmados se remete aos bairros de maior poder aquisitivo. Entretanto, quando a disseminação da doença passou ao seu estágio comunitário (transmissão entre pessoas que não estiveram fora do país), o vírus já passa a ampliar seu perfil seletivo e já pode ser encontrado na zona norte e bairros mais pobres.

A tendência agora é que a Covid-19 se espalhe por todo o município. Sobretudo nos bairros mais vulneráveis, pois tendem a ter uma capacidade muito mais limitada de cumprir o isolamento social. Além da relação espacial entre a expansão dos casos confirmados de coronavírus e as ocorrências policiais por descumprimento de distanciamento, os dados do OBVIO mostram um aumento no número médio de ocorrências diárias entre os dias 1° e 13 de abril (30), se comparado à última semana de março (17). Diante deste cenário de crescimento do número de casos confirmados em Natal e também das dificuldades de implementação mais ampla da restrição à mobilidade e circulação de pessoas, torna-se mais relevante ainda que o monitoramento e fiscalização das medidas de distanciamento social sejam efetivas.

Nos encontramos agora no momento mais crítico da curva de crescimento dos casos de contaminação da Covid-19. Se conseguimos atrasar um pouco esse pico, isso se deu pelas medidas de isolamento social. Relaxar essas medidas nesse momento é muito arriscado, pois antecipará o pico de casos no município de Natal. Com a pressão que certamente virá do interior, o sistema de saúde não terá capacidade de absorver a demanda independentemente se você usa o sistema público ou se tem planos de saúde privados.

Jarvis Campos – Demógrafo, professor do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais (DDCA) e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Joselito da Silveira Junior – Geógrafo, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Pedro Henrique Oliveira de Freitas – Geógrafo, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Ivenio Hermes Junior – Coordenador de análises criminais do Governo do Estado do Rio Grande do Norte e Doutorando em demografia pelo Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Confira essa e outras análises demográficas também no ONAS-Covid19 [Observatório do Nordeste para Análise Sociodemográfica da Covid-19] https://demografiaufrn.net/onas-covid19

Um comentário sobre “O descumprimento do distanciamento social e a expansão dos casos de Covid-19 em Natal: pressões na capital e o que vem do interior

  1. Infelizmente a pressão de parte do empresariado, incitada pelas declarações e ações do “presidente” da república, têm contribuído para o afrouxamento do isolamento social. Além disso, a morosidade para a liberação do pagamento do auxílio disponibilizado pelo governo, também contribui para tal situação. Moro em um condomínio ás margens da BR 101, na entrada de Natal, e observei um aumento considerável do fluxo de veículos nos últimos dias.

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