Pesquisa desenvolvida no PPGDem/UFRN mostra que o acesso a direitos básicos transformou a adaptação às secas, devolvendo ao sertanejo o poder de escolha sobre a própria migração frente aos desafios climáticos
A dinâmica populacional no Semiárido brasileiro historicamente remete à ideia de grandes fluxos migratórios e saídas motivadas por eventos climáticos extremos. No entanto, as últimas décadas evidenciaram mudanças significativas nessa trajetória, marcadas pela diminuição da emigração e por uma expressiva permanência das populações em suas terras natais. Esse fenômeno demográfico, classificado como imobilidade populacional, foi o foco de uma pesquisa que investigou como o acesso a políticas de proteção social influenciou a fixação de famílias rurais no Semiárido Setentrional entre os anos de 2001 e 2018. O estudo é fruto da tese de doutorado do pesquisador Paulo Victor Maciel da Costa, defendida no Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da UFRN, e contou com a orientação de Ricardo Ojima e Andrêa Jacqueline Fortes Ferreira (Cidacs/Fiocruz).

Para compreender essa nova realidade, a pesquisa utilizou os dados da Coorte dos 100 Milhões de Brasileiros(as), base que reúne informações socioeconômicas de famílias em situação de vulnerabilidade. A análise destacou o papel fundamental da segurança hídrica por meio do Programa Cisternas, uma política que descentralizou o acesso à água e estimulou a autonomia na gestão hídrica familiar. Quando o acesso às cisternas é combinado com programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, o efeito sobre a dinâmica populacional é notável: entre os mais de um milhão de indivíduos beneficiados simultaneamente por ambos os programas, registrou-se uma taxa de imobilidade de 63,1%. Isso indica que a maioria desse grupo permaneceu residindo no mesmo município em que nasceu.
Do ponto de vista dos estudos demográficos, esses resultados propõem uma mudança de paradigma ao demonstrar que a imobilidade não deve ser compreendida apenas como uma consequência imposta pela falta de recursos financeiros para migrar. Pelo contrário, ela atua como um reflexo da resiliência social construída no território. A sinergia entre o apoio financeiro e a mitigação da escassez hídrica ampliou a capacidade de adaptação dessas famílias diante do clima semiárido. Com isso, a decisão de não migrar ultrapassa a mera lógica econômica de sobrevivência e revela processos sociais profundos de pertencimento, fortalecimento de laços comunitários e ampliação da dignidade no cotidiano.
Em um contexto de mudanças climáticas globais, no qual projeções indicam o aumento das temperaturas e a intensificação de secas no meio rural semiárido, fortalecer a capacidade de resposta das populações locais é uma pauta urgente. A garantia de acesso a direitos fundamentais converte-se em uma estratégia de governança adaptativa, assegurando que o direito à mobilidade inclua, essencialmente, a liberdade de escolher entre partir ou ficar. Diante de tendências futuras que envolvem não apenas o clima, mas também o próprio envelhecimento populacional, fica o desafio para o poder público expandir essas redes de proteção para salvaguardar a sustentabilidade social das regiões mais sensíveis do país.
O estudo original foi publicado na Revista Brasileira de Estudos de População (Rebep) e pode ser acessado na íntegra através do link: https://doi.org/10.20947/S0102-3098a0325.





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