Dia mundial da população 2022: 8 bilhões e contando

A Divisão de População das Nações Unidas publicou hoje (11/07) o relatório “World Population Prospects 2022” em referência ao Dia Mundial da População. Criado pela ONU em 1989, o dia mundial da população faz referencia à data que a população mundial atingiu a marca de 5 bilhões de pessoas em julho de 1987 e tem como objetivo lembrar e esclarecer os desafios para a humanidade sem deixar ninguém para trás. Segundo o relatório, a previsão é de que o mundo atinja em novembro deste ano, mais especificamente no dia 15/11, a marca de 8 bilhões de pessoas. E deve atingir 10 bilhões por volta de 2080, mas deverá manter-se estabilizado nesse patamar até o final do século.

A passagem dos 7 bi para os 8 bi de pessoas teve forte contribuição da Ásia e África, sendo que 10 países contribuíram com metade desse 1 bilhão de pessoas adicionais em 12 anos. Olhando esses números de forma isolada, resgata-se naturalmente as preocupações com a perspectiva da “explosão populacional” ou do crescimento exponencial. Entretanto, o mesmo relatório menciona que dois terços da população mundial já vivem sob regimes de fecundidade abaixo nos níveis de reposição; ou seja, abaixo do nível mínimo de nascimentos por mulher que garantiria a manutenção do tamanho populacional.

Há inúmeros desafios a serem enfrentados pela humanidade: consequências da pandemia da Covid-19, aquecimento global, pobreza, acesso a educação, entre outros. O crescimento da população pode contribuir para agravar alguns desses problemas, mas é preciso refletir que o decrescimento populacional também trará consequências. Reduzir o tamanho da população não em si mesmo uma solução ou não pode ser considerada a causa dos problemas que enfrentamos. A verdade é que, em alguns casos, o decréscimo populacional pode ter efeitos muito mais complexos de serem enfrentados, como por exemplo, a redução da população em idade produtiva e o processo de envelhecimento populacional.

No Brasil, a estabilização e o declínio do tamanho populacional é uma realidade próxima. O relatório das Nações Unidas deixa claro que as previsões de decrescimento populacional são muito mais antecipadas do que no resto do planeta, pois o país já está em um processo de transição demográfica mais avançado. A linha azul contínua no Gráfico 1 representa a linha de tendência média, mais provável de acontecer nas projeções utilizadas pelo relatório. Assim, é esperado que a população brasileira que ainda cresce lentamente, deve começar a declinar antes de 2050 e deve atingir, em 2100, o mesmo volume populacional que havia perto do ano de 2000.

GRÁFICO 1

Assim, no caso do Brasil, a preocupação sobre uma “explosão populacional” já é uma coisa superada. A tendência mostra que não há mais nenhum risco da população brasileira seguir crescendo indefinidamente, como os malthusianos imaginavam. A questão populacional agora deveria ser outra: como lidar com os efeitos das mudanças na estrutura populacional decorrentes desse decrescimento? Um dos efeitos é o processo de envelhecimento. Até o final do século, as projeções apontam para mais de um quarto da população com mais de 70 anos de idade. Há políticas e preocupações institucionais para uma mudança acelerada como essa? A percepção já ultrapassada de que vivemos em um país jovem, com muitos nascimentos, permitirá visualizar os desafios futuros que nos aguardam nas próximas décadas? O Gráfico 2 mostra que o número de mortes deve superar o de nascimentos antes de 2050 (talvez até antes) e a tendência de nascimentos vem caindo sistematicamente desde o final dos anos 70. Por outro lado, a mortalidade vem aumentando, acompanhando a tendência do envelhecimento populacional.

GRÁFICO 2

Enfim, o crescimento populacional é um desafio superado e a “explosão populacional” uma preocupação fora do contexto nos dias de hoje. Se não tirarmos essa obsessão numérica da frente, dificilmente será possível perceber os outros desafios que teremos pela frente. E parte desses desafios serão justamente o resultado do que, em outros tempos, víamos como uma solução. Ou seja, reduzir o crescimento populacional não é a solução de todos os problemas e pode ser, inclusive, a gênese de muitos outros. E o pior de tudo será nos mantermos míopes para esses desafios acreditando em fantasmas do passado.

Ricardo Ojima – Demógrafo, Departamento de Demografia e Ciências Atuariais (DDCA) e Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem), Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

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