Sem reservar as doses, a vacinação deve diminuir o ritmo: analisando o caso de Natal

Nos últimos dias tem sido comum ver nas notícias que alguns municípios estão suspendendo a aplicação de vacinas por conta da falta de doses, principalmente nas capitais e municípios mais populosos. Não seria diferente no Rio Grande do Norte e, particularmente em Natal. Em grande medida, essa situação é decorrente da ausência de um leque maior de opções de fabricantes de vacinas disponíveis no Brasil. Como sabemos, o governo federal não foi ágil para as negociações e até o momento temos apenas duas vacinas sendo aplicadas no país: a Coronavac (produzida pelo Instituto Butantã) e a Astrazêneca/Oxford (produzida pela Fiocruz). Entretanto, o ritmo de produção dessas duas vacinas também são muito diferentes e temos, até o momento, uma proporção muito maior de doses da Coronavac à disposição da população. No RN, 76% das doses recebidas até o dia 15/04 eram provenientes do Instituto Butantã. Diante disso, o ritmo da vacinação no país e no RN seguiam a passos lentos até que ao final do mês de março, o governo federal autorizou/recomendou que os estados e municípios deixassem de reservar lotes de vacina para a aplicação da segunda dose.

A cobertura da imprensa vem acompanhando a evolução do processo de vacinação e normalmente destaca a faixa etária dos grupos prioritários como indicador do ritmo da vacinação. Mas como analisamos em texto anterior publicado aqui no ONAS, mais relevante que analisar se a vacinação já chegou às faixas etárias de 63 anos, por exemplo, é saber o grau de cobertura da vacinação nos diversos grupos etários acima dos 60 anos. Afinal, de que adianta iniciar a vacinação de pessoas com 63 anos se ainda falta vacinar metade da população com 70 anos. Complementando essa análise anterior, o que discutiremos aqui é o impacto da liberação da reserva da segunda dose no ritmo da vacinação e as suas consequências. Isso se torna mais relevante no caso da Coronavac, pois a recomendação de aplicação da segunda dose é entre 21 e 28 dias desde a aplicação da primeira dose. E ela é a principal vacina disponível aqui (78% das primeiras doses aplicadas até o momento).

A cobertura da população com mais de 60 anos segundo os municípios é calculada considerando a quantidade de pessoas com 60 anos ou mais que já foi vacinada dividindo pela estimativa da população nesse grupo etário para o ano de 2021. Como podemos ver nos mapas abaixo, os municípios do extremo oeste do estado apresenta uma maior cobertura da primeira dose da Coronavac. São João do Cabugi apresenta, por exemplo, uma cobertura acima de 70%. Quando observamos a cobertura da segunda dose, essa ainda é baixa em todo o estado. Há que se considerar, entretanto, que precisamos levar em conta o intervalo de aplicação entre as duas doses. Assim, em parte a baixa cobertura da segunda dose reflete o fato de que ainda não se chegou na data para a sua devida aplicação.

Quando observamos a diferença absoluta de primeira e segunda dose aplicadas, vemos que os maiores volumes se encontram nos municípios maiores, como era de se esperar. Proporcionalmente ao volume dessas diferenças não chegam a ser importantes, mas o mapa abaixo nos permite perceber como é destacado o peso que os maiores municípios têm na composição do comportamento geral do estado. Isso significa dizer que, em grande medida, os maiores municípios são os que desenham a tendência do estado em relação aos volumes absolutos e, por isso, merecem ser analisados com mais atenção. É onde se concentram os principais volumes de casos, mortes e internações por Covid-19 por ser onde há maior volume de população exposta ao risco. Assim, a cobertura vacinal dessas localidades, especialmente o município do Natal, é importante de ser analisado com cuidado.

Diferença absoluta da vacinação de pessoas com mais de 60 anos pela 1a dose e a 2a dose segundo municípios (dados até 08/04). Fonte: Ministério da Saúde via Brasil.IO (https://brasil.io/home/)

A evolução da aplicação da primeira dose no município do Natal é representada na figura abaixo e mostra na linha azul contínua a quantidade de primeiras doses aplicadas por dia. A linha azul pontilhada é o que seria a projeção da aplicação das segundas doses, caso fossem aplicadas exatamente 28 dias depois da primeira dose. Assim, espera-se que do dia 19/04 até o final do mês de abril sejam necessárias cerca de 51 mil doses a serem aplicadas entre as pessoas que já tomaram a primeira dose 28 dias atrás. 

Vacinação da 1a dose por data de aplicação e projeção de doses esperadas da 2a dose com 28 dias de diferença (dados até 17/04), Natal (RN). Fonte: Ministério da Saúde via Brasil.IO (https://brasil.io/home/)

Analisando apenas a sobreposição da projeção de aplicação esperada da segunda dose e a efetiva aplicação da segunda dose na figura abaixo, verificamos que até meados de fevereiro a vacinação da segunda dose em Natal acompanhava com um pouco de antecedência aos 28 dias de intervalo. A partir de março, o fluxo começa a ficar mais irregular. Como vimos em análise anterior, esse período correspondia à aplicação de doses em profissionais da saúde e, portanto, aparentemente pode estar relacionado à um melhor controle do fluxo de vacinação. A partir do momento que se inicia a aplicação de doses considerando o critério de idade esse fluxo começa a ficar mais irregular em relação ao intervalo de tempo entre as doses e também em termos dos volumes esperados de aplicação. Destaca-se que no final de março fica mais crítica a diferença entre o volume de pessoas esperadas para receberem a segunda dose e a efetiva aplicação delas.

Vacinação da 2a dose por data de aplicação e projeção de doses esperadas da 2a dose com 28 dias de diferença da 1a dose (dados até 17/04), Natal (RN). Fonte: Ministério da Saúde via Brasil.IO (https://brasil.io/home/)

Esse descompasso começa a ocorrer justamente no final do mês de março, quando os estados e municípios foram autorizados a não mais reservar as doses recebidas para aplicação da segunda dose. A verdade é que houve relativa pressão por parte do governo federal argumentando que a morosidade do processo de vacinação era responsabilidade dos municípios e estados, uma vez que a União já havia enviado um montante muito maior de doses do que aquelas que efetivamente vinham sendo aplicadas. De toda forma, havia a expectativa de que a distribuição de novas doses fosse aumentar gradativamente ao longo do tempo. Mas na prática, não foi isso que ocorreu.

A figura acima, portanto, nos deixa um importante alerta. Será que teremos vacina suficiente para aplicar a segunda dose da Coronavac nos próximos dias? Muito provavelmente não. Para cumprir o intervalo de 28 dias da Coronavac, o município de Natal precisaria disponibilizar cerca de 51 mil doses só para dar conta da segunda dose e, para termos um parâmetro, entre 01/04 e hoje foram recebidas cerca de 62 mil dose no muncípio. É muito possível que para não prejudicar a eficácia da vacina por conta do atraso da segunda dose, o município tenha que suspender (ou diminuir drasticamente) a aplicação da primeira dose por vários dias.

Enfim, para atender às expectativas de acelerar o ritmo de vacinação, a autorização de não reservar vacinas para aplicação da segunda dose parece ter sido um equívoco. Se essa estratégia permitiu acelerar a velocidade em um primeiro momento, agora deverá pagar seu preço, pois sem o aumento proporcional das entregas de novas doses pelo Ministério da Saúde, os municípios serão pressionados por não disporem de doses suficientes para manter o ritmo atual. Nesse sentido, parece ser mais prudente voltar atrás nessa estratégia e guardar as doses, pelo menos no caso da Coronavac onde o intervalo entre as doses é mais curto. O ritmo da vacinação só vai acelerar efetivamente quando houver uma maior produção e distribuição ou quando novas fabricantes chegarem ao país.

Ricardo Ojima – Demógrafo, professor do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais (DDCA) e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Jarvis Campos – Demógrafo, professor do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais (DDCA) e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Confira essa e outras análises demográficas também no ONAS-Covid19 [Observatório do Nordeste para Análise Sociodemográfica da Covid-19] https://demografiaufrn.net/onas-covid19

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