Dados epidemiológicos da COVID-19 e o distanciamento social em Bonito (PE)

Esta nota apresenta informações epidemiológicas da cidade de Bonito, Pernambuco relacionadas à COVID-19 e ao distanciamento social. Bonito está localizada a 136 km da capital Pernambucana, Recife, e possui uma população de 37.566 habitantes. A cidade é conhecida por suas cachoeiras e paisagens naturais, que atraem turistas de diversos locais do país. Bonito já foi premiada como umas das sete maravilhas de Pernambuco, concurso que destacou as principais riquezas culturais e naturais do Estado.

Em Pernambuco, o primeiro caso de COVID foi confirmado na cidade de Recife no dia 12 de março, e o primeiro óbito no dia 25 de março. Já a cidade de Bonito teve seu primeiro caso de COVID-19 e primeiro óbito confirmados no dia 19 de abril de 2020. Até o dia 05 de agosto, a cidade contabilizava um total de 228 casos e 22 óbitos confirmados por COVID-19.

Dados e modelo

Os dados epidemiológicos (número de casos e óbitos) da COVID-19 utilizados nesta nota foram coletados do Instagram oficial da Secretaria de Saúde de Bonito, os quais são publicados diariamente. Já os dados de distanciamento social foram fornecidos pela InLoco, uma startup de tecnologia que tem acompanhado a movimentação de cerca de 60 milhões de brasileiros por meio de localização de celulares. A informação é proveniente de aplicativos parceiros instalados voluntariamente pelos usuários, que podem ou não permitir o envio de suas informações. Para acompanhar a evolução do nível de transmissão da COVID-19 em Bonito, foi estimado o número de reprodução ao longo do tempo (denominado R(t)).

Bonito e as medidas de enfrentamento da COVID-19

No dia 17 de março, a prefeitura de Bonito regulamentou, através do decreto municipal  10/2020, medidas temporárias para enfrentamento da emergência de saúde pública decorrente da COVID-19. As informações deste decreto (e dos posteriores) foram registradas na página oficial da prefeitura e repassadas para a população através de canais de comunicação como rádios comunitárias e veículo sonoro circular, que propagam informações nas pequenas cidades onde a Internet ainda não é o principal meio de comunicação.

No decreto 10/2020, foi criado um comitê municipal de crise para enfrentamento da pandemia; as aulas regulares da rede pública municipal e particular, os cursos regulares, profissionalizantes, universidades e faculdades, bem como a realização de eventos com público superior a 50 pessoas, atividades das academias esportivas, dentre outras atividades foram suspensas a partir do dia 18 de março. Serviços essenciais como Unidades Básicas de Saúde, farmácias e supermercados foram notificados pela vigilância sanitária para que ampliassem as medidas de segurança e reduzissem a jornada de trabalho diária, com horário de funcionamento  pré-determinado pelos órgãos de fiscalização local.

Outros decretos foram publicados com o objetivo de intensificar as medidas de distanciamento social em Bonito, como o decreto municipal 011/2020 que suspendeu as atividades de restaurantes, salões de beleza, clubes sociais e comércio nas cachoeiras a partir de 20 de março.

No dia 31 de março, a prefeitura de Bonito decretou estado de calamidade pública em virtude da situação de emergência de saúde pública. Através das atividades da Atenção Básica, os Agentes Comunitários de Saúde iniciaram o procedimento de busca ativa de infectados pela COVID-19 nas residências da Zona Rural e Urbana com o objetivo de coleta de dados para fomento do sistema eletrônico do SUS conhecido como e-SUS.

No dia 13 de julho, Bonito avançou para a Etapa 4 do Plano de Convivência do Estado de Pernambuco juntamente com outras cidades do Agreste, como Caruaru e Bezerros, permitindo a reabertura de diversos estabelecimentos comerciais, como lojas de varejo, salões de beleza, shopping centers com atendimento presencial, bem como o retorno de celebrações em igrejas e templos religiosos.

Bonito e os números da COVID-19

A Figura 1 apresenta as informações epidemiológicas referentes a COVID-19 na cidade de Bonito, além de informações sobre distanciamento social.

A Figura 1(a) representa os números de casos confirmados de COVID-19 por dia e sua respectiva tendência; a Figura 1(b) refere-se a quantidade de óbitos por COVID-19 confirmados por dia e a tendência apresentada; a Figura 1(c) apresenta a estimativa do número de reprodução (R(t)); e por fim, a Figura 1(d) apresenta a evolução do indicador de isolamento social da InLoco para esse município em comparação com o estado de Pernambuco. Esse indicador representa o percentual da população que permaneceram em suas casas. Os dados são diários e se referem ao período de 19 de abril (dia do primeiro caso confirmado em Bonito) a 05 de agosto.

Figura 1. Curvas referentes à quantidade diária de casos confirmados e óbitos por COVID-19, estimativa do número de reprodução (R(t)) e distanciamento social da cidade de Bonito, de 19 de abril (dia do primeiro caso confirmado em Bonito) a 05 de agosto

A curva de casos confirmados apresenta uma curva crescente suave, com um pico no dia 11 de julho (com 15 casos confirmados), que pode ser referente ao acúmulo de casos suspeitos, cujos resultados foram divulgados conjuntamente neste dia. A média móvel de 14 dias aponta o crescimento do números de casos confirmados por dia em Bonito.

A curva de estimativa do número de reprodução de Bonito oscila bastante, o que é esperado para municípios pequenos devido a quantidade de subnotificações de casos. Apesar de finalizar o período analisado com o R(t) abaixo de 1, na maior parte do período o R(t) permaneceu acima de 1, caracterizando um cenário de disseminação da doença.

Importante ressaltar que o índice de distanciamento social da InLoco aponta valores sempre abaixo de 45%. A cidade apresentou valores abaixo da média do Estado de Pernambuco no início do período analisado e a partir de meados de junho, apesar da cidade apresentar uma pequena melhoria no índice de isolamento social (ficando acima da média do Estado), ainda permanece abaixo de 45%. 

Essas estimativas apresentam uma grande variabilidade no tempo pois capturam diferentes efeitos, como mobilidade diferenciada nos finais de semanas, maior presença de turistas na cidade, testes clínicos em massa, entre outros. Assim, é recomendado que, para relaxar as medidas de distanciamento social, o número de reprodução (R(t)) mantenha-se menor que 1 por algumas semanas seguidas.

Considerações finais

É importante salientar as limitações existentes nesta nota. Apesar de utilizarmos dados oficiais da prefeitura de Bonito, há de se considerar fatores como número de testes realizados, atraso nas atualizações diárias dos boletins, dados faltantes, diferença entre data de óbito e data de notificação, entre outros. Vale salientar, que o protocolo de testagem tem um impacto direto no número de casos contabilizados. De acordo com o Ministério da Saúde, em abril, apenas algumas pessoas, como profissionais de saúde, profissionais de segurança pública e pessoas com mais de 60 anos, poderiam inicialmente realizar o teste para COVID-19 através do SUS. Assim, existe a possibilidade dos números serem subestimados, havendo algumas pessoas contaminadas fora dos registros oficiais.

Com relação aos dados de distanciamento social, é preciso considerar que eles são coletados a partir de dispositivos móveis. No caso específico de municípios pequenos e situados em localidades cuja qualidade e disponibilidade de Internet na cidade são fatores marcantes, altos índices de distanciamento social podem refletir mais uma questão de infraestrutura do que de comportamento de maior adesão ao distanciamento social da população frente à pandemia.

Vale ressaltar também que o R(t) estimado para a cidade de Bonito permaneceu acima de 1 na maior parte do período analisado e portanto, é importante continuar monitorando os indicativos epidemiológicos e os indicadores de distanciamento social para monitorar a disseminação da COVID-19 na cidade de Bonito. É importante ressaltar que Bonito possui uma sala vermelha para atendimentos emergenciais graves em geral e um centro de recuperação para tratamento de COVID-19. Porém, a cidade não possui leitos de UTI e os casos mais graves de COVID-19 são encaminhados para os centros médicos em cidades que possuam disponibilidade de leitos de UTI mais próximos, como Caruaru e Recife.

Élisson da Silva Rocha é mestrando em Engenharia da Computação pela Universidade de Pernambuco (UPE), e graduado em Sistemas de Informação pela Universidade de Pernambuco (UPE).

Raul Lima é graduado em Administração pela Universidade de Pernambuco (UPE), Formação Pedagógica em Letras – Português (UNIASSELVI) e Pós-graduando em Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa e Literatura (UNIASSELVI).

Kayo Henrique de Carvalho Monteiro é mestrando em Engenharia da Computação pela Universidade de Pernambuco (UPE), e graduado em Sistemas de Informação pela Universidade de Pernambuco (UPE).

Guto Leoni Santos é doutorando em Ciência da Computação da Universidade Federal de Pernambuco (CIn/UFPE), mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Pernambuco (CIn/UFPE) e graduado em Sistemas de Informação pela Universidade de Pernambuco (UPE).

Patricia Takako Endo é professora adjunta da Universidade de Pernambuco (UPE) e membro permanente do Programa de Pós-Graduação em Engenharia da Computação (PPGEC/UPE).

Ivanovitch Silva é professor adjunto do Instituto Metrópole Digital da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (IMD/UFRN) e vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica e de Computação (PPgEEC/UFRN).

Luciana Lima é professora adjunta do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (DDCA/UFRN) e vice-coordenadora do Programa de Pós-graduação em Demografia (PPgDEM/UFRN).

Marcel Ribeiro-Dantas é pesquisador no Institut Curie (UMR168), Mestre em Bioinformática (UFRN) e doutorando na L’école doctorale informatique, télécommunications et électronique (EDITE) da Sorbonne Université (Paris).

Gisliany Alves é graduada em Ciências e Tecnologia e em Engenharia de Computação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e mestre em Engenharia Elétrica e de Computação (UFRN).

Confira essa e outras análises demográficas também no ONAS-Covid19 [Observatório do Nordeste para Análise Sociodemográfica da Covid-19] https://demografiaufrn.net/onas-covid19

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