Editorial | ONAS-Covid19 | 17.05.2020 | A universidade pública na pandemia e a comunicação científica

A Constituição Federal Brasileira de 1988, em seu artigo 207, estabelece que “as  universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”. Como consequência das desigualdades de acesso educacional e também de uma construção manualesca disseminada na sociedade sobre o papel das universidades públicas, invariavelmente o conhecimento que se tem delas é o seu papel no ensino. É surpreendente que as instituições de imprensa sempre divulguem resultados de pesquisas conduzidas nas universidades (essencialmente as públicas, pois cerca de 95% da pesquisa brasileira acontece dentro delas), mas ao mesmo tempo a sociedade perceba a universidade apenas como espaço de aulas.

Uma avaliação realizada pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) divulgada dia 11.05.2020 destacou que, no apoio ao enfrentamento da pandemia, as universidades federais brasileiras produzem pelo menos 823 projetos de pesquisa, 96 ações de produção de álcool e 104 ações de produção de Equipamentos de Proteção Individual. De certo, esse levantamento é parcial, pois há muita coisa sendo feita e que ganha pouca visibilidade. Algumas ações são mais localizadas e talvez não tenham a mesma projeção que os grupos que estão desenvolvendo respiradores de baixo custo na USP, na UFRGS, na UFG ou na UFPB; só para ficar em alguns dos exemplos de maior evidência. Mas a verdade é que boa parte das atividades desenvolvidas não buscam publicidade, pois entende-se que fazem parte do tripé que sustenta a nossa atuação: Ensino-Pesquisa-Extensão.

Como forma de proteger os alunos e toda a comunidade acadêmica, as universidades suspenderam as atividades de ensino. Há cerca de dois meses, as universidades federais não estão ministrando aulas e apenas 6 das 69 decidiram adotar o modelo de ensino à distância como forma alternativa aos cursos presenciais. As aulas foram suspensas devido ao fato de que contrariam as recomendações sanitárias proporcionar aglomerações de pessoas em ambientes fechados. As salas de aula mantém grupos grandes de pessoas por horas seguidas dentro de ambientes fechados, portanto, serviriam como mecanismos de potencialização do contágio não apenas dos alunos e professores, mas multiplicando o contágio em suas casas, trabalho, etc. Contudo, a decisão de não adotar o ensino online derivou do entendimento que ele é excludente, pois parte expressiva dos estudantes não dispõem de infraestrutura de internet e/ou computadores para acompanhar normalmente as atividades.

Mas como dissemos inicialmente, o ensino é apenas uma parte das funções da universidade pública. Quase a totalidade das atividades de pesquisa se mantém inalterada em formato de home office. Mesmo nos casos onde há necessidade de uso de laboratórios, muitos docentes permanecem atuando com uma relativa regularidade. A redação e revisão de artigos periódicos científicos continua (como sempre ocorre, nem sempre respeitando finais de semana ou feriados). A emissão de pareceres para editais de fomento, para relatórios, laudos, perícias e afins também permanece inalterado. Diversos seminários virtuais estão sendo conduzidos para discutir temas de relevância para o contexto da pandemia, como por exemplo (e ligado a nossa área de pesquisa), a parceria que a Associação Brasileira de Estudos Populacionais (ABEP) e o Fundo de População das Nações Unidas no Brasil (UNFPA Brasil) organizam webinários sobre temas populacionais relacionados à Covid-19.

O trecho que menciona autonomia “administrativa e de gestão financeira e patrimonial” às universidades públicas, do artigo 207 da Constituição Federal, também contém atribuições que mantém a universidade funcionando. Essa autonomia se reflete no fato de que é a própria comunidade universitária a responsável por administrar toda a estrutura. Assim, reitores, pró-reitores, diretores e chefes de unidades acadêmicas, coordenadores de cursos, entre outros, permanecem despachando requisições, solicitações, processos, orçamento, etc. Grande parte das decisões são colegiadas, portanto, as reuniões deliberativas permanecem ocorrendo virtualmente.

Por fim, o não menos importante, a extensão universitária que desenvolve atividades que buscam compartilhar com a sociedade em geral os desenvolvimentos e resultados de pesquisa e ensino. Desde ações para apoio aos profissionais de saúde no uso de EPIs até a arrecadação de doações ao sistema prisional, a universidade está cumprindo o seu papel de dar retorno à sociedade aos investimentos colocados aqui. O nosso projeto do ONAS-Covid19 está entre esses tantos exemplos de ações de retorno à sociedade do que produzimos na universidade. Ao contrário do que parece ao público externo, academicamente as análises desenvolvidas aqui não somam como produções científicas de pesquisa aos nossos currículos. O objetivo aqui é de disseminação de conhecimento, de divulgação científica e, portanto, não se enquadra estritamente como atividade de pesquisa, embora seja resultado dela.

Enfim, surpreende que o Ministério da Educação sugira que irá premiar as universidade federais que estiverem dando aulas. A universidade pública não está parada. Se não dá aulas, não é por falta de vontade, mas por respeitar as evidências científicas (não poderia ser diferente) de que atualmente a única medida de combate eficaz à Covid-19 é o distanciamento social. E os alunos, boa parte deles, também não está parada. Muitos estão mantendo suas pesquisas de iniciação científica (entre os alunos de cursos de graduação) e, principalmente, os alunos de pós-graduação continuam a rotina de suas dissertações e teses (contando com reuniões regulares com seus orientadores).

As análises do ONAS-Covid19, por exemplo, contam com a colaboração dos alunos de iniciação científica e pós-graduação. Em três dos cinco textos de análise publicados essa semana (entre 11.05 e 17.05) participaram alunos de graduação e pós-graduação. Entendemos que é preciso formar pesquisadores e profissionais que também saibam transformar os resultados de suas análises em conteúdo de maior amplitude de leitores, que faça sentido para a sociedade. Sobretudo no caso da pós-graduação, formamos pesquisadores (com suas dissertações, teses e artigos) e também os treinamos para a docência (com os estágios à docência e cursos de caráter didático). Poucas vezes temos treinamento direcionado para extensão ou, nesse caso, para divulgação e comunicação científica. Esperamos que estes alunos possam ir além de reprodutores dos modelos tradicionais, mas que possam evoluir para um modo de se fazer ciência mais humanizado e socialmente responsável. Então, embora seja extensão, estamos ensinando com resultados de pesquisas. Afinal, o tripé ensino-pesquisa-extensão é indissociável.

Editorial | 17.05.2020 | Ricardo Ojima | Coordenador do ONAS-Covid19 | Programa de Pós-Graduação em Demografia | Universidade Federal do Rio Grande do Norte | A universidade pública na pandemia e a comunicação científica

Confira essa e outras análises demográficas também no ONAS-Covid19 [Observatório do Nordeste para Análise Sociodemográfica da Covid-19] https://demografiaufrn.net/onas-covid19

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