Bônus Demográfico e o Hiato do Emprego: Por que o Semiárido Ainda Luta para Avançar?

Pesquisa revela que a região possui um prazo estratégico para transformar o crescimento da população em idade ativa em desenvolvimento econômico real

O Semiárido Setentrional brasileiro está passando por uma transformação profunda em sua estrutura etária, marcada por uma rápida transição demográfica. Historicamente caracterizada por altas taxas de fecundidade e mortalidade, a região agora apresenta um estreitamento da base de sua pirâmide populacional e um aumento expressivo da População em Idade Ativa (PIA), que saltou de 5,9 milhões em 1970 para 13,3 milhões em 2022. Esse fenômeno criou uma “janela de oportunidade”, um período em que a proporção de pessoas em idade produtiva é maior do que a de dependentes (crianças e idosos), favorecendo potencialmente o crescimento econômico.

Embora essa janela tenha se aberto fora do Semiárido por volta de 1990, no Semiárido Setentrional o processo teve início apenas em 2005. Essa defasagem de quinze anos oferece à região um lapso temporal estratégico para aproveitar o chamado “bônus demográfico”. No entanto, a análise do Índice de Emprego Formal (IEF) revela que esse bônus foi aproveitado de forma moderada apenas até 2014, seguido por um período de estagnação. Em 2021, a desigualdade inter-regional ainda era evidente: enquanto o IEF no restante do país era de 37,8%, no Semiárido Setentrional esse índice alcançava apenas 17,1%.

O perfil da força de trabalho na região também envelheceu, com a predominância de adultos entre 30 e 49 anos, o que exige uma mudança nas políticas públicas de educação e trabalho. Diferente das décadas passadas, onde o foco era o ensino básico para jovens, a atual estrutura demográfica demanda investimentos urgentes em formação técnica e profissionalizante para garantir o retorno imediato da produtividade. Além disso, a forte presença do setor público na geração de empregos formais na região — chegando a 41,2% dos vínculos no Setentrional — sinaliza a necessidade de diversificação econômica para absorver o excedente populacional de forma sustentável.

Este estudo é fruto da tese de doutorado de Jonilson de Souza Figueiredo, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Demografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), sob orientação da professora Luana Junqueira Dias Myrrha. O trabalho destaca que a demografia não é um destino inflexível, mas sim um fator que interage com as políticas econômicas e sociais. Sem investimentos em infraestrutura e na superação das limitações impostas pelas secas recorrentes, a janela demográfica corre o risco de se fechar sem que a riqueza potencial seja plenamente convertida em bem-estar para a população local.

O artigo foi publicado na Revista Brasileira de Estudos Populacionais (Rebep) e pode ser acessada AQUI. Para quem quiser saber mais detalhes e uma visão mais aprofundada sobre o tema, a tese de doutorado de Jonilson está disponível na BDTD da UFRN.

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