Estudo de autoria de Amadeu Clementino Araújo Neto , egresso do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) em coautoria com outros pesquisadores propôs analisar o efeito da idade, do período e de coorte (APC) na mortalidade por câncer de ovário, revelando como a dinâmica populacional e as desigualdades regionais modulam os riscos de morte pela neoplasia entre 1980 e 2019. A pesquisa foi publicada na revista Ciência & Saúde Coletiva e é resultado da dissertação de mestrado do primeiro autor.

O arcabouço demográfico é central para a análise, que decompõe a mortalidade em três eixos temporais. O “efeito de idade” reflete as mudanças biológicas do ciclo de vida. O “efeito de período” captura alterações conjunturais que afetam todas as faixas etárias simultaneamente, como inovações em tratamentos ou políticas de saúde, por exemplo. Por fim, o “efeito de coorte” se refere às mudanças socioculturais e políticas que impactam uma geração específica ao longo de sua vida, refletindo a exposição acumulada a fatores de risco e/ou proteção. O estudo utilizou modelos de regressão de Poisson para estimar o impacto de cada um desses componentes.
Os resultados demonstram uma heterogeneidade marcante entre as regiões. No Sul, apesar de as taxas de mortalidade serem historicamente mais altas , observou-se uma tendência de redução no risco de morte nos períodos mais recentes (2010-2014 e 2015-2019). Do ponto de vista das coortes, ou seja, das gerações, o estado do Rio Grande do Sul apresentou uma progressiva redução no risco de morte para as mulheres nascidas a partir de 1955. Este cenário pode estar associado a um maior acesso a serviços de saúde e ao uso mais difundido de contraceptivos orais, um fator de proteção.
Em contrapartida, a Região Nordeste apresentou uma trajetória inversa e mais preocupante. A análise indicou um aumento progressivo no risco de morte nos últimos períodos. O efeito de coorte também foi desfavorável, com um risco de morte crescente para as gerações mais jovens. Mulheres nascidas a partir da década de 1960 no Nordeste enfrentam uma maior probabilidade de morrer por câncer de ovário em comparação com as gerações anteriores.
A conclusão do artigo reforça que as diferentes velocidades das transições demográfica e epidemiológica, intrinsecamente ligadas ao desenvolvimento socioeconômico e ao acesso desigual a serviços de saúde, explicam essas disparidades. Enquanto as gerações mais antigas do Nordeste foram expostas a fatores protetores, como altas taxas de fecundidade, as mais novas vivenciaram mudanças no comportamento reprodutivo e no estilo de vida sem o correspondente avanço no acesso a redes de cuidado oncológico e saúde sexual, resultando em tendências de mortalidade distintas e que refletem as profundas desigualdades regionais do Brasil.
ONDE: Ciênc. saúde coletiva 30 (8) • Aug 2025 • https://doi.org/10.1590/1413-81232025308.17032023






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