A violência letal contra a mulher é um desafio persistente no Brasil. O artigo recém-publicado na BMC Public Health, fruto de uma dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da UFRN pela egressa Karen Raquel F. do Nascimento, analisou as taxas de homicídios femininos no país antes e durante a pandemia de COVID-19, entre 2017 e 2022. O estudo revela que, embora houvesse uma tendência de queda, a pandemia esteve associada a um aumento abrupto em contextos específicos e a real dimensão do problema é mascarada pela má classificação dos dados oficiais, o que impacta diretamente o entendimento sobre os grupos demográficos mais vulneráveis.

Um dos principais desafios para a análise demográfica da violência é a qualidade dos registros. O estudo aplicou uma correção nos dados de mortalidade para reclassificar as “mortes por eventos de intenção indeterminada” que frequentemente ocultam homicídios. Essa correção revelou uma realidade mais grave: a taxa de homicídios de mulheres no Brasil foi 16% maior do que a oficialmente registrada, alcançando 5,09 mortes por 100 mil mulheres. A disparidade é ainda maior em certas regiões, como a Sudeste, onde a subnotificação foi tão expressiva que a taxa corrigida de homicídios aumentou em quase 29%.
O perfil demográfico e geográfico das vítimas evidencia profundas desigualdades. As taxas de homicídio mais elevadas concentram-se nas regiões Norte e Nordeste, que superam em muito a média nacional. Os dados apontam que adolescentes e mulheres jovens adultas são as mais desproporcionalmente afetadas por essa violência letal. Além disso, a análise por local da ocorrência mostra que os homicídios em residências superaram os ocorridos em espaços públicos, e o uso de armas de fogo se destacou como o principal método utilizado, sendo mais frequente que as mortes por objetos contundentes.
Contrariando a expectativa de uma explosão nacional de casos, a pesquisa identificou que as taxas de homicídios femininos, no geral, seguiram uma tendência de redução progressiva durante a pandemia, dando continuidade a uma queda que já vinha ocorrendo. No entanto, a análise demográfica detalhada revelou exceções alarmantes: a região Nordeste e os homicídios cometidos com armas de fogo foram as duas únicas categorias que registraram um aumento abrupto e estatisticamente significativo logo no início da crise sanitária. Este padrão heterogêneo levanta uma questão crucial: por que os fatores de risco associados à pandemia intensificaram a violência letal em certas regiões e contextos, enquanto em outros a tendência de queda se manteve?
Onde: Nascimento, K.R.F.d., et al. Female homicides in Brazil before and during the COVID-19 pandemic: an interrupted time-series analysis. BMC Public Health, 2025. 9 Disponível no link: https://rdcu.be/eM5Kx.






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