Um estudo recente publicado na Revista Latinoamericana de População, derivado da tese de doutorado da pesquisadora Antonia Jaine da Silva Pereira, defendida no Programa de Pós-Graduação em Demografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e em coautoria com sua orientadora, a professora Silvana Nunes de Queiroz, da Universidade Regional do Cariri (URCA), investigou um fenômeno social e demográfico de grande relevância no Nordeste brasileiro: os chamados “jovens sem-sem”. Essa denominação refere-se à população juvenil que, em determinado momento de sua trajetória, não está nem estudando nem trabalhando. A pesquisa buscou compreender como as dificuldades de transição da escola para o mercado de trabalho são influenciadas por fatores demográficos e pelo contexto socioeconômico, analisando dados das últimas três décadas (1993-2023). O foco na região Nordeste justifica-se pela persistência de maiores vulnerabilidades nas condições de inserção profissional quando comparada a outras regiões do Brasil.

Para desvendar as dinâmicas por trás desse fenômeno, os pesquisadores utilizaram um método demográfico conhecido como Idade-Período-Coorte (APC). Esse modelo permite analisar as mudanças sociais a partir de três dimensões distintas. O efeito de idade observa como o comportamento dos indivíduos muda à medida que envelhecem. O efeito de período captura a influência de eventos e condições contextuais de um momento específico, como uma crise econômica, que afetam toda a população simultaneamente. Por fim, o efeito de coorte analisa as experiências compartilhadas por uma geração nascida na mesma época, que moldam suas trajetórias de vida de maneira particular.

Os resultados gerais indicam uma forte tendência de permanência dos jovens na escola por mais tempo. As gerações mais novas (coortes recentes) apresentam chances cada vez menores de abandonar os estudos para ingressar no mercado de trabalho ou de se tornarem “sem-sem”, quando comparadas às gerações anteriores. Contudo, essa maior escolarização não tem se refletido necessariamente em uma transição mais fácil para o mercado de trabalho. O avanço da idade continua sendo o fator mais forte para impulsionar a saída da escola, mas essa transição, muitas vezes, não leva a uma ocupação, elevando o risco de o jovem se encontrar na condição “sem-sem”, especialmente após os 20 anos.

A análise aprofundada revela que o mercado de trabalho, representado pela taxa de desocupação (efeito de período), desempenha um papel crucial na configuração desse cenário. O estudo evidencia que o aumento do desemprego eleva diretamente as chances de um jovem se tornar “sem-sem”, mas esse impacto não é uniforme. Jovens de famílias de baixa renda, residentes em áreas rurais e do sexo masculino são os mais afetados negativamente pelas flutuações da economia. Para esses grupos, a instabilidade econômica limita severamente as oportunidades, tornando a condição de não estudar e não trabalhar uma realidade mais provável. Em contrapartida, jovens de estratos socioeconômicos mais altos conseguem, com mais frequência, permanecer estudando como estratégia de proteção.

Em suma, a pesquisa demonstra que a transição para a vida adulta no Nordeste é um processo marcado por profundas desigualdades. Embora a extensão da vida escolar seja uma tendência positiva, ela ocorre em um contexto de crescentes dificuldades de inserção profissional, que penaliza de forma desproporcional os jovens mais vulneráveis. A condição “sem-sem” surge, portanto, não como uma escolha, mas como um reflexo das barreiras estruturais e conjunturais que limitam as possibilidades de futuro. Diante de um mercado de trabalho tão seletivo, de que maneira as políticas públicas podem garantir que a maior dedicação aos estudos se converta efetivamente em melhores trajetórias de vida para a juventude?


Acesse o arquivo do artigo completo: Jovens sem-sem: efeitos de idade, período e coorte sobre as possibilidades de transição escola-trabalho no nordeste do Brasil no início do século XXI

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