Pesquisa recentemente publicada na Revista Brasileira de Estudos de População desenvolvida pela doutora Antonia Jaine Pereira, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e a docente do Programa de Pós-Graduação em Demografia da UFRN, Silvana Nunes de Queiroz, da Universidade Regional do Cariri (Urca), analisou as mudanças no processo de transição para a vida adulta entre os jovens da Região Nordeste. O estudo comparou dados dos Censos Demográficos de 1991 e 2010, revelando um cenário de maior complexidade, prolongamento e diversificação nas trajetórias juvenis, fortemente influenciado por desigualdades socioeconômicas.
Um dos principais resultados aponta para um duplo movimento. Primeiramente, as trajetórias durante a adolescência se tornaram mais homogêneas. O aumento do tempo dedicado à escola fez com que mais jovens, especialmente rapazes e aqueles de menor renda, permanecessem na condição de estudante por mais tempo em 2010 do que em 1991. Em contrapartida, nas idades jovens adultas, o processo se diversificou intensamente. O roteiro tradicional e linear de concluir os estudos, trabalhar, casar e ter filhos foi substituído por uma multiplicidade de combinações e sequências de eventos.
Essa diversificação, contudo, é condicionada por desigualdades estruturais. O estudo demonstra que a condição econômica da família afeta diretamente o processo de transição no Nordeste. Jovens de famílias com renda mais alta conseguem adiar a entrada em papéis adultos, prolongando o período de formação. Para os jovens de estratos de renda mais baixos, a necessidade de trabalhar acelera a assunção de responsabilidades, o que pode limitar as perspectivas de autonomia. Embora as diferenças entre os jovens das áreas urbana e rural tenham diminuído no período, elas ainda persistem.
A pesquisa também destaca a crescente centralidade da inserção profissional. Em 2010, o status ocupacional (estar ou não trabalhando) consolidou-se como o principal fator para a heterogeneidade nas trajetórias dos jovens. A conquista de um lugar no mercado de trabalho aparece como um condicionante fundamental para a realização de outras transições, como a independência residencial e a formação de uma nova família. Este cenário reforça o elemento da incerteza na construção biográfica dos jovens da região.
Em síntese, os resultados indicam que a transição para a vida adulta no Nordeste se tornou um processo mais longo, menos padronizado e com um final menos definido. Se, por um lado, a maior permanência na escola homogeneíza as experiências no início da juventude, por outro, a inserção social posterior é marcada por uma diversidade de caminhos profundamente estratificada pela condição socioeconômica.


Referência do artigo:
PEREIRA, A. J. S.; QUEIROZ, S. N. Modalidades de transição à vida adulta entre os jovens no Nordeste na passagem do século XX para o XXI. Revista Brasileira de Estudos de População, v. 42, p. 1-24, e0302, 2025.

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