Texto original de Larissa Costa, Notícias Cidacs

A expectativa de vida é uma informação crucial para políticas públicas, porém difícil de estimar em nível municipal, especialmente em países extensos como o Brasil. Um novo estudo, publicado no periódico Population Health Metrics, abordou essa questão ao aplicar a combinação de métodos estatísticos inovadores para projetar as tendências de taxas de mortalidade por sexo e idade, e de expectativa de vida para os mais de 5 mil municípios brasileiros. Os resultados indicam que, apesar de haver projeção de maior longevidade para a população no geral, municípios menos desenvolvidos socioeconomicamente tendem a ter as menores expectativa de vida. 

Esta pesquisa foi elaborada através de uma parceria entre pesquisadores do Centro de Integração de Dados e Conhecimento para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), das Universidades Federais do Rio Grande do Norte (UFRN), de Minas Gerais (UFMG), da Bahia (UFBA) e da Paraíba (UFPB), e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); além de instituições estrangeiras como a Comisión Económica para América Latina y el Caribe (ECLAC), do Chile, e da University of Glasgow, da Escócia.   

Através da estimativa das taxas de mortalidade nos municípios brasileiros, constatou-se uma tendência de melhora dos números apresentados, com variação entre as regiões. As maiores taxas de mortalidade infantil se concentram no Norte e Nordeste, com destaque para a primeira região. Já as taxas de mortalidade entre adultos se concentram mais nos municípios próximos às capitais estaduais, principalmente no Nordeste. 

Aumento na expectativa de vida – Com essas informações, a equipe estimou a expectativa de vida e constatou que houve também avanços nesse índice. Após a correção de subnotificação, percebeu-se que a expectativa de vida ao nascer tende a aumentar nos próximos anos, porém essa melhoria ocorre em um ritmo menor nas regiões com índices menores de desenvolvimento – principalmente nas regiões Norte e Nordeste.  

”Observamos que as desigualdades na expectativa de vida entre regiões, tal como vistos em 2010, serão atenuadas ao longo do tempo, porém não completamente eliminados até o fim desta década. Em 2030, ainda teremos algumas diferenças importantes em relação à expectativa de vida entre as regiões brasileiras, e até mesmo entre localidades de uma mesma região”, considera Marcos Gonzaga, pesquisador da UFRN e um dos responsáveis pelo estudo. 

Uma constatação muito importante na investigação mostra as diferenças entre os gêneros em relação a expectativa de vida ao nascer. Em 2010, para a maioria dos municípios essa expectativa estava entre 68 e 82 anos para as mulheres e entre 39 e 68 para os homens. Para 2030, as diferenças se mantêm na maioria dos municípios, com uma expectativa de 82 aos 89 anos para as mulheres e de 75 aos 82 anos para os homens. Veja mais no mapa da Distribuição da expectativa de vida nos municípios brasileiros.

Ou seja, de forma geral, a melhora na expectativa de vida é mais pronunciada para mulheres que homens. Marcos explica que isso geralmente tem relação com o fato de que as mulheres buscam mais os serviços de saúde, são mais atuantes na prevenção e adotam um melhor estilo de vida, refletindo na redução das suas taxas de mortalidade quando comparadas aos homens, e, consequentemente, apresentando maiores expectativas de vida.  

“Os resultados indicam um processo de deslocamento da concentração do maior número de óbitos em idades mais avançadas e uma maior concentração de óbitos ao redor dessas idades mais velhas”, afirma o pesquisador. Tal dado pode ser atribuído à redução da letalidade de doenças, em particular as doenças crônicas não transmissíveis, bem como o avanço dos tratamentos médicos e acesso aos serviços de saúde.  

É importante reforçar que o estudo não leva em conta dados posteriores à pandemia da Covid-19, que afetou esses indicadores de mortalidade e de esperança de vida. 

Impacto do estudo na prática – o estudo estimou as taxas de mortalidade por sexo e idade para os 5.565 municípios brasileiros em 2010 e as suas projeções para 2030, bem como a expectativa de vida no período de 2010 a 2030, seguindo três passos: primeiro, através da estimativa da taxa de mortalidade por faixa etária e gênero em 2010; após isso, houve a correção das estimativas por taxas de subnotificação. Por fim, com a mesma tendência de subnotificação, a equipe de pesquisa elaborou projeções das taxas de mortalidade e expectativa de vida nos municípios para o ano de 2030.  

Elzo Júnior, pesquisador do Cidacs que colaborou no estudo, ressalta que por suas dimensões, o Brasil apresenta muitas características diferentes entre suas regiões. “Essas desigualdades envolvem o porte populacional, a área territorial, as condições de vida da população e aspectos econômicos. Sendo assim, estimar indicadores em pequenas áreas é algo bastante complexo quando os eventos ocorrem com certa raridade, como nos municípios de pequeno porte”, afirma.   

Foram utilizados dados provenientes do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e do Censo IBGE de 2010, e de outros compilados feitos por especialistas em Saúde Pública. Baseado em modelos estatísticos elaborados por pesquisas anteriores, este estudo inova ao traçar essas projeções para pequenas áreas. Além disso, os resultados evidenciam a importância de fazer a correção dos óbitos em função da limitação dos dados de cada região. 

Em contextos de crises de saúde, como foi a pandemia da Covid-19, a estimativa de mortalidade em pequenas áreas é crucial para entender o impacto de novas doenças. “Nós pensamos que a combinação dos métodos estatísticos que usamos é flexível o suficiente para ser aplicado a outros países em desenvolvimento, que possuam problemas similares quanto ao registro de informações”, argumenta Marcos.  

Este estudo preenche uma lacuna que é comum em países com diferenciais regionais de qualidade nos registros vitais, que é a estimação desses números ao nível municipal. Informações como a expectativa de vida da população de um local são essenciais para orientar gestores na formulação de políticas nas áreas de previdência, saúde, e até planejamento urbano – ao serem levados em conta para a construção de cidades mais “amigáveis” a idosos, por exemplo.  

A pesquisa completa está disponível online.  

Pesquisador(es): Marcos R. GonzagaBernardo L. QueirozFlávio H.M.A. FreireJosé H.C. Monteiro-da-SilvaEverton E.C. LimaWalter P. Silva-JúniorVictor H. D. DiógenesRenzo Joel Flores OrtizLilia C. C. da CostaElzo JúniorMaria Yury IchiharaCamila S. S. TeixeiraFlávia Jôse AlvesAline dos Santos RochaAndrêa FerreiraMauricio BarretoSrinivasa Vittal KatikireddiRuth DundasAlastair Leyland.

Periódico: Population Health Metrics

Ano de publicação: 2024

DOI: doi.org/10.1186/s12963-024-00329-x

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