Pelo menos 8 milhões de pessoas no Nordeste necessitariam do auxílio emergencial

A necessidade de distanciamento social durante a pandemia do coronavírus teve como consequência a redução dos postos de trabalho em todo o mundo. Na maioria dos países foi mantido o funcionamento apenas dos postos de trabalhos de áreas prioritárias como saúde, limpeza, segurança e alimentação. Os governos vêm investindo em políticas para mitigar os efeitos deste cenário na economia de suas nações. No Brasil, contudo, as ações governamentais estão ocorrendo tardiamente, pois já há famílias que se encontram em situação de insegurança alimentar por falta de renda. Antes da pandemia, tínhamos milhões de pessoas na informalidade que recebiam por semana ou por dia, a depender do que conseguiam com o próprio trabalho, que não possuíam nenhum tipo de poupança e que já enfrentavam dificuldades para alimentar toda a família.

Infelizmente, o país já vinha vivenciando crescentes taxas de desemprego e de informalidade desde de 2015, como consequência da crise econômica e política, bem como da recente reforma trabalhista, aprovada no governo Temer, que facilitou crescimento de postos de trabalho intermitente e dos informais. Enquanto no Brasil o percentual de pessoas ocupadas em trabalhos informais é de 41,5%, o que já é um montante elevado, no Nordeste a situação se agrava para 56,3%, com variações significativas (como 48,6% no Pernambuco e 64,9% no Maranhão).

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Atualmente, a estrutura etária brasileira apresenta uma característica vantajosa para a economia: uma grande proporção de pessoas em idade ativa. Em 2018, 65% da população brasileira tinha entre 14 anos e 59 anos. Se esse grupo de pessoas estivesse majoritariamente empregado e formalizado, o país estaria aproveitando seu bônus demográfico e arrecadando consideráveis quantias para o financiamento da Previdência Social.

Outra realidade brasileira desfavorável à população é o contexto de redução de investimentos em políticas sociais dos últimos anos. De acordo com estudos da FGV, desde de 2016 o número de beneficiários do programa Bolsa Família vem reduzindo, atingindo seu pior índice em julho de 2017 e o segundo pior índice em novembro de 2019, após o corte de 1,15 bilhão de beneficiários pelo governo Bolsonaro.  Essa realidade vem contribuindo para o aumento da pobreza e extrema pobreza em todo país, mas principalmente nas regiões mais pobres como Norte e Nordeste.

O Nordeste, que concentra quase 37% das famílias em vulnerabilidade econômica a espera do programa,  recebeu do atual governo apenas 3% das novas concessões do Bolsa Família. Além disso, temos a reforma da previdência aprovada pelo governo Bolsonaro, que enrijeceu os critérios para alcançar o benefício da aposentadoria e para a elegibilidade aos Benefícios de Prestação Continuada (BPC), que também contribuíram para reduzir os investimentos em Seguridade Social. Apesar dessas perdas, em 2018, 36,6% das famílias no Nordeste tinham sua renda dependente dos benefícios dos aposentados e pensionistas e 24,2% de outras políticas sociais. No Brasil esses percentuais são 33,8% e 12,1%, respectivamente. Consequentemente, menos pessoas estão sendo assistidas pelas políticas sociais e mais pessoas estão em condições de vulnerabilidade econômica, durante a pandemia do Novo Coronavírus, uma vez que a maioria dos informais estão sem nenhuma renda, além daqueles que já estavam desempregados. No Brasil, eles totalizam 46,7 milhões de pessoas e, no Nordeste, 14,5 milhões.

Somente ontem, dia 01 de abril, foi sancionado pelo presidente o auxílio emergencial de R$600,00 para trabalhadores informais, para contratados de forma intermitente e inativo, autônomos e microempreendedores individuais (MEI), com  renda familiar mensal inferior a meio salário mínimo per capita ou três salários mínimos no total . O auxílio não será pago a quem já recebe  aposentadoria, seguro-desemprego ou qualquer programa de transferência de renda. Apenas os beneficiários do Bolsa Família que poderão optar pelo novo auxílio, durante o período de três meses. Cabe ressaltar que idosos e pessoas com deficiência na fila do INSS para receber o Benefício de Prestação Continuada (BPC) também poderão fazer jus a esse auxílio.

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De acordo com Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, o custo estimado dessa ação para o governo federal será de 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB) do país no ano passado. O governo estima atingir 54 milhões de pessoas com essa medida. No Nordeste, em 2018, segundo dados da PNAD, os trabalhadores sem carteira assinada ou por conta própria, com renda domiciliar per capita de até meio salário mínimo, somavam mais de 5,7 milhões de pessoas, além de 2,5 milhões de desempregados que não tinham nenhum rendimento proveniente de aposentadoria, pensão ou BPC. Esse grupo alcança o montante de 8,2 milhões de pessoas.

Essa ação, portanto, vai amparar significativa parte da população brasileira e evitar a fome de muitos. A exemplo do programa Bolsa Família, essa ação também será positiva para economia, pois, conforme estudos do IPEA, a cada R$1,00 investido no programa  acrescenta-se ao PIB R$1,78. Portanto, esse investimento também é uma forma de ajudar a economia do país.

Luana Junqueira Dias Myrrha – Demógrafa, professora do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais (DDCA) e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Jordana Cristina de Jesus – Demógrafa, professora do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais (DDCA) e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Confira essa e outras análises demográficas também no ONAS-Covid19 [Observatório do Nordeste para Análise Sociodemográfica da Covid-19] https://demografiaufrn.net/onas-covid19

 

Pandemia por Covid-19 e repercussões sobre a fecundidade: algumas observações históricas e de contexto

Episódios de alta mortalidade, como aqueles provocados por guerras, catástrofes naturais ou pandemias como o novo Coronavírus, que até o presente momento já produziu cerca de 42 mil mortes em todo o planeta, pode repercutir também sobre a fecundidade. De acordo com uma revisão bibliográfica realizada pelo Institute for Family Studies, um centro de estudos do Reino Unido, em outros eventos catastróficos verificou-se redução do número de nascimentos. São citados como alguns desses eventos o furacão Katrina, que em 2005 matou cerca de 1.800 pessoas nos EUA, e a epidemia de Ebola, iniciada em 2013 no Oeste da África e que produziu cerca de 11.000 óbitos. Uma importante observação desse instituto é que o impacto na redução da natalidade não é diretamente proporcional ao impacto da mortalidade que essas crises provocam, ou seja, não significa que um evento que tenha ceifado a vida de 5% da população reduza a fecundidade também em 5%.

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De acordo com esse instituto, os sobreviventes colaterais sofrerão com os impactos da alta mortalidade em diversas esferas de sua vida social: muitos deles terão que recobrar a saúde duramente afetada, muitos perderão seus empregos, terão que recomeçar do zero em seus empreendimentos, e do ponto de vista psicológico, muitos terão que aprender a lidar com a perda de entes queridos, como filhos, cônjuges, pais, e demais pessoas de suas redes de relações interpessoais. Esse contexto social disruptivo pode levar à redução da fecundidade no curto prazo. Porém, com o fim do período de crise os estudos apontam aumento do número de nascimentos.

Este foi o caso da Gripe Espanhola, ocorrida no início do século XX, em que foram contabilizadas cerca de 50 milhões de mortes em todo o mundo. Um estudo publicado em 2017 voltou-se para os impactos dessa doença na Suécia. Naquela localidade em que cerca de 1% da população faleceu em decorrência da Gripe Espanhola, a taxa bruta de natalidade (que consiste no número de nascimentos para cada grupo de 1.000 habitantes) declinou durante a pandemia. Porém, o estudo mostra um claro aumento da natalidade na Suécia em 1920, ou seja, no primeiro ano após o fim do período de crise. Todavia, esse babyboom não ocorreu de maneira homogênea no país, tendo sido observado que nos distritos mais duramente afetados esse aumento no número de nascimentos foi menos intenso, e por pelo menos um período de 10 anos. Ou seja, eventos de alta mortalidade como a gripe espanhola parecem deixar marcas profundas e duradouras sobre o comportamento reprodutivo da população.

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Voltando à nossa situação atual, nos próximos anos, e com a condução de estudos nessa linha para os efeitos do novo Coronavírus sobre a fecundidade, saberemos se o número de nascimentos aumentou, diminuiu ou permaneceu o mesmo e para países de diversas partes do mundo. Todavia, cabe salientar que o contexto de eclosão do COVID19 é diferente do contexto da Gripe Espanhola no que ser refere à natalidade. No mundo em que vivemos a tendência dominante é de redução da fecundidade, graças a fatores como a ampla disseminação e utilização de métodos contraceptivos de alta eficácia. Os casais têm optado cada vez mais por uma prole pequena, em torno de dois filhos ou menos, e muitos indivíduos não desejam ter filhos.

Para efeito de comparação e com base em dados para o conjunto da população mundial, se no início da segunda metade do século XX o número médio de filhos por mulher era igual a cinco, na segunda metade do século XXI essa estatística se reduziu pela metade, ou seja, 2,5 filhos. E no caso específico dos países já acometidos drasticamente pelo novo Coronavírus, como a Itália, a taxa de fecundidade total já se encontra em níveis muito baixos, cerca de 1,3 filho por mulher. Esse novo contexto em termos de natalidade pode ter implicações distintas àquelas observadas em outros episódios registrados na história de alta mortalidade, sobretudo, no chamado efeito rebote de nascimentos pós período de crise. Aguardemos os próximos estudos que virão.

Luciana Lima – Demógrafa, professora do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais (DDCA) e vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

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ONAS-Covid19 é destaque na edição do RN no Ar da TV Tropical

O Observatório do Nordeste para Análise Sociodemográfica da Covid-19 (ONAS-Covid19) foi destaque na edição deste dia 2 de abril. Em entrevista para a edição da manhã do noticiário da TV Tropical (afiliada a Rede Record de televisão), o professor Ricardo Ojima comentou sobre o objetivo do observatório e suas principais análises já divulgadas. Confira no link abaixo o trecho da entrevista.

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A Covid-19 no Ceará e o papel da mobilidade populacional na expansão dos casos

A etimologia da palavra ‘pandemia’ vem do grego, onde ‘pan’ = significa todos e ‘demo’ = significa povo. Portanto, pandemia diz respeito a disseminação de uma doença infecciosa pelos países e entre os povos. Por sua vez, Demografia (demo = povo e grafia = estudo), é a ciência que estuda a população/povos, a partir da dinâmica entre os seus três componentes (natalidade, mortalidade e movimentos populacionais) e a sua relação com a política, economia, geografia, questões ambientais, entre outros. Nesse sentido, diante de um cenário de pandemia mundial, a Demografia é uma das ciências que pode auxiliar na compreensão da distribuição espacial no número de casos (origem e destino/dispersão) e letalidade da covid-19 pelo Brasil, bem como no monitoramento e planejamento de ações para combater esta pandemia.

Na região Nordeste chama atenção a disseminação do coronavírus no estado do Ceará. Segundo as estimativas populacionais do IBGE para 2019, o Ceará tinha 9,1 milhões de habitantes (4,3% do país) o que a coloca como a oitava mais populosa do Brasil. Entretanto, em relação aos casos confirmados da covid-19 até o dia 31/03/2020, o Ceará é a terceira Unidade da Federação com 390 casos. Posiciona-se atrás somente dos estados de São Paulo (2.339 casos e uma população de 45,9 milhões habitantes ou 21,9%) e do Rio de Janeiro (708 casos e uma população de 17,2 milhões de habitantes ou 8,2%).

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Fonte: Ministério da Saúde (31/03/2020, 17h21)

Mas, apesar do número de casos confirmados no Ceará ser expressivo (o terceiro do país) e chamar a atenção, a taxa de letalidade é de 1,8% e posiciona-se abaixo do estado de São Paulo (5,8%), Rio de Janeiro (3,2%) e do Brasil (3,5%), conforme o boletim divulgado pelo Ministério da Saúde, no dia 31 de março de 2020. Contudo, dentre os nove estados que compõe o Nordeste, o Ceará é o primeiro em número de casos confirmados (390) e supera a Bahia (213) e o Pernambuco (87), Unidades da Federação com uma população superior a cearense.

Todavia, no Nordeste a taxa de letalidade é maior em estados com menor número de casos confirmados quando comparado ao Ceará (1,8%), como é o caso do Piauí (22,2%), Pernambuco (6,9%), Alagoas (5,6%) e Maranhão (3,2%). Com isso, o Ceará é o primeiro em número de casos no Nordeste e o quinto em taxa letalidade. Esse número é preocupante, porque as pessoas acometidas pela covid-19 podem piorar o estado de saúde e ter que realizar o tratamento em hospitais e, com isso, saturar o sistema de saúde cearense.

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Fonte: Ministério da Saúde (31/03/2020, 17h21)

Diante desses números, qual foi a possível rota do coronavírus até chegar ao Ceará? Por que o estado tem mais casos no Nordeste? Por que se concentra em Fortaleza? Quinta capital mais populosa do Brasil (2,6 milhões de habitantes em 2019), mas terceira capital em números de casos, ao concentrar 353 acometidos concentrando 90,5% de todos os casos identificados no estado.

Segundo o Governador Camilo Santana, a entrada do coronavírus no Ceará teria sido pelo sistema aeroportuário, através de uma grande quantidade de voos internacionais que chegam diariamente a Fortaleza (cerca de 45 durante a semana), capital do Brasil mais próxima da Europa e líder no ranking de voos internacionais do Nordeste. Destaca-se também a maior cobertura de testes, segundo declaração do Ministro da Saúde, Luiz Mandetta, em uma de suas coletiva de imprensa e ratificada pelo governador cearense.

A imprensa cearense e baiana também conectam a proliferação da covid-19 pelo país até chegar a Fortaleza a um casamento no litoral baiano, no início de março, quando um dos convidados era um empresário cearense que teria contraído a doença na festa. Tendo feito o teste positivo para a covid-19 em São Paulo, o empresário não cumpriu isolamento social e viaja novamente para o sul da Bahia e convida casais de amigos para sua casa de praia. Entre estes, diversos cearenses que retornam para Fortaleza atestando positivo para a covid-19. Como se trata de um vírus de elevado potencial de contágio, embora pareça anedótico explorar a contaminação ocorrida em duas ou três festas, foi aí o início do contágio comunitário (aquele que não ocorre de pessoas contaminadas fora do país).

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Silvana Nunes de Queiroz | Docente do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem/UFRN)

Entre os políticos cearenses o número de casos também é alto, com os primeiros casos anunciados no dia 18 de março de 2020. A vice-governadora do Ceará, Izolda Cela, e o seu esposo, Veveu Arruda (ex-prefeito de Sobral), que tinham retornado da Europa para Fortaleza há poucos dias foram os primeiros registros. Segundo a imprensa do Ceará, até o dia 28 de março de 2020, 11 (onze) políticos do Ceará, a maioria residente em Fortaleza, testaram positivo para o novo coronavírus.

O que estas trajetórias nos indicam é a confirmação da relação entre o aspecto sanitário/infeccioso da Covid-19 com um aspecto demográfico importante: a mobilidade da população. Entender os diversos motivos de mobilidade populacional que extrapolam a migração (com mudança de residência) mas consideram idas-e-vindas para trabalho, lazer, visitas familiares, compras, etc é fundamental para entender o fluxo e potencial do alcance geográfico da Covid-19. Atualmente estamos ainda verificando o contágio comunitário nas capitais, mas em breve, essa situação deverá chegar aos municípios pequenos e médios do interior decorrente dessas relações históricas da capital com sua rede de cidades.

Silvana Nunes de Queiroz – Demógrafa, professora do Departamento de Economia da Universidade Regional do Cariri (URCA) e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

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Os desafios do home office para as mulheres, em tempos de isolamento social (devido ao COVID-19)

Até o momento, o isolamento social tem sido a única “vacina” para evitar o contágio em massa do novo coronavírus. Vários trabalhadores e trabalhadoras das áreas não prioritárias estão em casa desenvolvendo seu ofício no chamado home office, sobretudo entre a classe média e ocupações em que isso é viável. Mesmo que seja realidade para um grupo específico da população, o contexto de home office ainda guarda distinções importantes entre homens e mulheres no Brasil. Isso porque na sociedade brasileira, independente da classe social, há uma enorme desigualdade na forma como homens e mulheres alocam seu tempo em atividades remuneradas e não remuneradas. Mais de 80% da carga de tarefas domésticas ainda são responsabilidade feminina, entre elas os afazeres domésticos e cuidado das crianças e de idosos.

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Cerca de 4,6 milhões de mulheres atuam no mercado de trabalho formal no Nordeste e 26 milhões no Brasil. Parte dessas trabalhadoras está agora em casa mantendo sua atuação profissional à distância durante essa primeira fase de isolamento social adotada no Brasil. A maioria delas precisa produzir durante esse período, com a mesma qualidade e celeridade que homens em cargos semelhantes. Na classe média, muitas famílias terceirizam o trabalho doméstico e cuidado das crianças e idosos contratando diaristas, empregadas domésticas, babás, creches, cuidadores de idosos, etc. Contudo, diante da necessidade do isolamento das famílias neste período, as atividades das creches e escolas estão paralisadas e a atuação de diaristas, empregadas domésticas e cuidadores de idosos não são recomendadas.

Portanto, para quem está em home office e têm crianças em idade escolar, os desafios são muitos, pois deixar a casa organizada, limpar, cozinhar, lavar e passar roupa, entreter as crianças e, em muitos casos, cuidar dos animais domésticos, torna a realização do trabalho formal remunerado em casa bastante custosa em termos de disponibilidade de tempo. As estatísticas do IBGE evidenciam que, em situação de ”normalidade”, antes da necessidade de isolamento, as mulheres já dedicavam quase o dobro de horas aos afazeres domésticos se comparadas aos homens. Segundo dados disponíveis para 2018, elas dedicaram cerca de 21 horas semanais e os homens apenas 11 horas. Essa diferença é um pouco menor quanto maior a escolaridade dos homens, mas ainda assim é uma diferença bastante significativa. São poucos os domicílios no Brasil que tem suas demandas de atividades atendidas de forma paritária por homens e mulheres.

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Jordana Cristina de Jesus (esq.) e Luana Myrrha | Docentes do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem/UFRN)

As relações de gênero dentro das famílias ainda são muito desiguais no nosso país e, infelizmente, o contexto político atual parece reforçar a manutenção dessa desigualdade e até mesmo contribuir para o agravamento dessa situação, quando declarações de políticos e até o Presidente da República reiteram a equivocada ideia de que as mulheres são inferiores aos homens e que a força laboral delas deveria ser menos remunerada devido, por exemplo, à condição de maternidade. Enfim, infelizmente no Brasil e ainda em grande parte do mundo, naturaliza-se a ideia de que as mulheres são as responsáveis naturais a assumir o trabalho doméstico e o cuidado das crianças e idosos, via de regra, sem reconhecimento ou valorização desse trabalho.

Existem atualmente no Brasil mais de 2 milhões de mulheres que possuem alguma ocupação remunerada e que residem simultaneamente com crianças e idosos. Portanto, estas mulheres já dedicam parcela considerável do dia para trabalho doméstico e cuidados. Sem falar no trabalho mental e psicológico que esse cuidado envolve, uma vez que ainda há a preocupação com toda essa estrutura doméstica e a auto-cobrança pelo equilíbrio entre as duas esferas da vida. Assim, o contexto de isolamento social torna o tempo delas bastante reduzido para se dedicar ao que se vem chamando de home office e, para aquelas que convivem com crianças e idosos no mesmo domicílio, a situação é ainda pior.  Já existem evidências científicas de que a sobrecarga de trabalho, a autocobrança, a frustração de não estar cumprindo satisfatoriamente seu trabalho remunerado ou mesmo os cuidados dos membros da família leva ao adoecimento mental de muitas mulheres, quadro que provavelmente se agravará no atual cenário de isolamento social.

Luana Junqueira Dias Myrrha – Demógrafa, professora do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais (DDCA) e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Jordana Cristina de Jesus – Demógrafa, professora do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais (DDCA) e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

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Suspender as atividades escolares também diminui a circulação geral de pessoas

A atual polêmica em torno da questão do isolamento social como meio de reduzir a propagação da Covid-19, proposto e defendido por diversas entidades e especialistas no Brasil, a exemplo da nota conjunta divulgada no último dia 27 de março pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a Academia Brasileira de Ciências (ABC), e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), dentre outras, em oposição ao chamamento do Presidente Jair Bolsonaro para que seja implementado o denominado “isolamento vertical”, passa por considerações a respeito da reabertura dos estabelecimentos de ensino e volta às aulas presenciais, dentre outras questões. Cabem, então, algumas reflexões baseadas em informações sobre os efeitos que poderiam advir do retorno à “normalidade” das aulas.

Os dados mais recentes e completos a respeito de alunos e professores da educação básica são do Censo Escolar de 2019, atualizados em 19 de março de 2020 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – INEP. As informações referentes à educação superior não contemplam variáveis suficientes para análises a respeito de deslocamentos espaciais, motivo pelo qual a discussão aqui será restrita à educação básica. Não obstante, os volumes de pessoas que se deslocam espacialmente para estudo ou trabalho apreciados abaixo seriam ainda maiores, caso os números da educação superior fossem incluídos.

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Ao nos debruçarmos sobre as informações específicas da Região Nordeste, contabilizamos quase 14 milhões de pessoas, dentre as quais se encontram crianças, jovens e adultos, que frequentavam presencialmente estabelecimentos de ensino e creches, em todas as etapas da educação básica, enquanto o regime de aulas estava ativo. Isso significa que todas essas pessoas circulavam pelo menos entre seus lares e suas escolas em seu trajeto diário para estudar, ainda que o deslocamento fosse a pé, além de outros espaços que, eventualmente, pudessem ser acessados nesse percurso, como uma lanchonete ou uma padaria.

Importante destacar que mais de 22% dessas pessoas, o que corresponde a aproximadamente 3 milhões de estudantes, utilizavam transporte público para ir à escola, que é um fator adicional no risco de contágio, uma vez que as pessoas normalmente se agregam nas paradas e terminais de ônibus ou estações de metrô e trem, e não têm como guardar a distância recomendada entre os passageiros dentro do meio de transporte. Adicione-se a esse volume os mais de 620 mil docentes da educação básica do Nordeste. Com a suspensão das aulas presenciais, pode-se considerar que esse número de pessoas deixará de circular pelo sistema de transporte, ao menos com fins de estudo, o que diminuirá a possibilidade de propagação da Covid-19.

Além das pessoas que usam transporte público dentro do município, há que se considerar, também, as pessoas que realizam o chamado deslocamento pendular para estudar ou para lecionar, ou seja, deslocam-se de seu município de residência para o município do estabelecimento de ensino onde estudam ou lecionam. Em 2019, mais de 630 mil estudantes (ou 5% deles e delas) realizaram o deslocamento pendular entre municípios para estudar, e quase 95 mil professores(as) (15% do total) também o fizeram para dar aulas. Cabe destacar que, entre os docentes, muitos se enquadram no grupo de risco em função da idade. É também importante refletir que, no caso do deslocamento entre municípios, as consequências relacionadas à possibilidade de aumentar a propagação do vírus são potencialmente piores que as do uso do sistema de transporte intramunicipal, uma vez que, normalmente, o trajeto da residência até a escola entre municípios diferentes será maior e levará mais tempo.

Esse fato, por si só já é um elemento de ampliação das possibilidades de risco relacionado à contaminação pelo vírus. Ademais, há que se considerar que, ao circular entre diferentes municípios, os quais têm autonomia para decidir a respeito das restrições de abertura e funcionamento de diversos setores (comércio, indústria, serviços), as pessoas podem colocar em contato as condições de contágio desses diferentes territórios. O resultado poderia, por exemplo, trazer consequências nefastas para aquele município que, em função do isolamento social planejado e executado, teve seu índice de contaminação ampliado em função da circulação de estudantes e docentes que, porventura, tenham vindo de outro município com menores restrições e maiores índices de contaminação.

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Wilson Fusco | Docente do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem/UFRN)

Se, de forma geral, a proporção de estudantes e professores que se deslocam para o município do estabelecimento de ensino era expressivo, essa condição é mais intensa em espaços de maior aglomeração humana, como as regiões metropolitanas. A título de exemplo, na Região Metropolitana de Natal aproximadamente 9% dos alunos e 21% dos docentes praticam o movimento pendular intermunicipal para estudar e trabalhar, respectivamente. E esses números tendem a ser maiores em função da população e da conformação geográfica dos municípios da área em questão. Para que a heterogeneidade espacial possa ser mais bem apreciada, observe-se o caso da Região Metropolitana do Recife, que apresenta população e conurbação maior que em Natal, e onde 12% dos alunos e 33% dos docentes deslocam-se entre municípios durante o período de aulas.

Por fim, é importante lembrar que não se trata exclusivamente daqueles que participam das aulas presenciais, os alunos, professores e profissionais do serviço administrativo das escolas da educação básica que ficam mais expostos ao risco de contágio e que ampliam a possibilidade de propagação do referido vírus. Ao retornarem a seus lares, todos aqueles que coabitam com pessoas do grupo de risco diminuem a eficiência do isolamento parcial, pois aumentam as possibilidades de que algum descuido ou contato pessoal sem intenção provoque a transmissão da doença. Certamente, muitos dos alunos e dos professores dividem seus domicílios com idosos. Assim, eles e outras pessoas do grupo de risco sofreriam as consequências do retorno de tantas pessoas ao convívio social normal caso fosse estabelecido a volta às aulas. Parece que o mais razoável, neste momento, é aguardar até que os especialistas sobre o tema tragam novidades que possam embasar cientificamente qualquer alteração na recomendação de isolamento social adotado atualmente.

Wilson Fusco – Demógrafo, pesquisador na Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) e professor do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

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